A cinebiografia de Michael Jackson lançada neste ano, Michael (Fuqua, 2026), aborda o período da vida do astro que vai da infância até a turnê do disco Bad (1987), a primeira em carreira solo. Eis que a sequência espiritual direta deste filme é Moonwalker, lançado em 1988, exatamente durante esta turnê e incorporando as principais canções do disco — como Man in The Mirror, Smooth Criminal e a faixa título, Bad.

É difícil pensar em Moonwalker como um filme só, com uma narrativa única. A obra é dividida em segmentos bem distintos: partes de show, montagens com vídeos e fotografias do passado, reimaginação de videoclipe, animação com massinha de modelar (claymation), animação com colagens e um curta cheio de efeitos especiais sobre mafiosos vendendo drogas para crianças. A única coisa que une esses é o próprio Michael Jackson. Por isso, a sensação é de estar vendo um DVD de videoclipes do artista e não um longa.

Entretanto, a obra talvez possa ser entendida como uma autobiografia e um reposicionamento de imagem extremamente efetivo. O Michael Jackson dessa época queria dissociar a imagem dos irmãos e, para isso, assumiu uma posição mais ativa durante a produção de Bad — que seria a última parceria com o produtor Quincy Jones — e buscou um som eletrônico mais moderno. Além disso, o vitiligo universal já não podia mais ser disfarçado e, assim, ele aparecia com uma maquiagem que era um meio termo entre as partes mais escuras e claras da pele.

Portanto o cantor, que a essa altura já era uma das pessoas mais famosas do mundo, precisava gravar essa nova imagem no imaginário do público. A primeira faixa de Moonwalker é Man in The Mirror, em um segmento que mostra cenas de apresentações da turnê, entrecortadas com imagens de acontecimentos e figuras importantes — e aqui é uma salada que vai de Martin Luther King Jr, passando por ações humanitárias na África e Ronald Reagan, até o acidente de Chernobyl. É o Michael pedindo para que as pessoas sejam agentes de mudanças, exaltando os que foram e também se colocando nessa posição de autocrítica. Parece que há uma vontade do cantor de usar a própria fama para combater as mazelas do mundo, continuando o trabalho humanitário que ele já estava promovendo previamente.

Mas, antes, uma retrospectiva da carreira do astro — ou: o roteiro do filme Michael — é mostrada em uma montagem com trechos das músicas marcantes, vídeos e fotografias ilustrando as diversas fases do artista: da infância nos Jacksons 5, com I Want You Back e Ben, até o Bad, representado por The Way You Make Me Feel e Dirty Diana. Mais uma vez reafirmando que o passado ficou para trás e agora é a hora de uma nova imagem. E, não ironicamente, o filme emenda uma reimaginação do clipe de Bad somente com crianças.

Os segmentos decorrentes iniciam uma sequência de críticas à indústria do audiovisual, à mídia e aos fãs, que não respeitam o espaço dos artistas, encurralando-os de forma que eles tem que se transformar em outra coisa para escapar. Aqui são as duas partes feitas em animações: a primeira, com a canção Speed Demon, que mistura claymation com live action, caricaturas pejorativas dos grupos criticados e o coelho Spike, que ajuda o Michael a escapar das perseguições; a segunda é o clipe surreal e cheio de simbolismos da canção Leave Me Alone, que venceu um Grammy posteriormente, e expõe a perseguição e mentiras da imprensa sobre ele. É o cantor pedindo paz e liberdade para escrever a própria história.

Em seguida começa o segmento mais longo e conhecido do filme. Dessa vez, Michael Jackson atua como uma versão mágica dele mesmo, que ajuda seus amigos, dois meninos e uma menina, a escaparem de mafiosos que estão planejando vender uma droga extremamente viciante para crianças. Por algum motivo Joe Pesci aceitou fazer o papel do líder canastrão e comicamente malvado dos criminosos, o que eleva muito a atuação estática do resto do elenco. Sem nenhum motivo aparente também, Michael entra em um clube estagnado da década de 1930 e aí surge o clássico videoclipe de Smooth Criminal. Porém, nada tem a ver com a narrativa das drogas, que por sua vez é resolvida com um Michael Jackson robô gigante e nave espacial.

É assim que o desejo do astro de salvar o mundo e, principalmente, salvar as crianças, fica estabelecido — e essa seria a principal missão dele na década seguinte. O filme termina com as crianças assistindo a uma apresentação do cover de Come Together, dos Beatles, de quem os direitos autorais do catálogo de músicas pertencia ao Michael.

Com a vontade de mudar o mundo e um convite à união, Michael Jackson inicia a nova fase da carreira de forma retumbante. O filme não foi um enorme sucesso de bilheteria, mas está fixado no imaginário popular de forma que a imagem do Michael aqui, especialmente em Smooth Criminal, rivaliza com Thriller como a mais icônica do artista. Acredito que a intenção do astro era, principalmente, escrever a própria história, separada dos irmãos, do pai controlador, e deixando claro quais eram suas prioridades dali em diante. Como cinema, Moonwalker falha em amarrar suas diversas partes — e o que o Michael tem de dançarino, ele não tem de ator —, mas fica o mérito de criar experiências audiovisuais que nunca serão esquecidas.