Antoine Fuqua, depois de ficar conhecido por dirigir videoclipes, ganhou grande reconhecimento em Hollywood por conta de seus trabalhos em filmes de ação. Seu primeiro longa Assassinos Substitutos (1998), revelou o grande ator de ação Hong Kong Chow Yun-Fat e, alguns anos mais tarde, seu trabalho mais famoso, o suspense policial Dia de Treinamento (2001), recebeu duas indicações ao Oscar, rendendo um prêmio de melhor ator para Denzel Washington. Nos últimos anos, Fuqua dirigiu uma adaptação, também estrelada por Washington, da série dos anos oitenta O Protetor, além de um remake da obra de John Sturges, o faroeste Sete Homens e um Destino (1960). Percebe-se que o diretor, apesar de ser apontado como um operário criativo de estúdio, mantém uma certa identidade em suas produções, trabalhando diversas vezes com a ação e o suspense em diferentes medidas, fato que pode gerar estranheza sobre sua escalação para dirigir Michael.

Esse filme enfrentou dificuldades, tanto em sua produção quanto em sua pós-produção, que claramente afetaram seu desenvolvimento. Mesmo que as diversas polêmicas acerca da representação de certos momentos, alguns marcantes e outros polêmicos da vida do cantor, não sejam diretamente resultados da direção criativa de Fuqua. Essas questões pesaram bastante no resultado final do longa, como quando descobrimos que todo o terceiro ato seria refilmado. 

Michael narra os primeiros anos da carreira de Michael Jackson (Jaafar Jackson), desde a formação do Jackson 5 e os abusos de seu pai, até a sua última turnê com seus irmãos, onde o músico finalmente se livrou das amarras emocionais de Joe Jackson (Colman Domingo). Essa narrativa, apesar de contar com diversos conflitos que definiram sua persona como artista, é contada a partir de uma estrutura biográfica extremamente genérica e sem impacto. O roteiro prefere focar em pequenos mecanismos de nostalgia que parecem isolados de todo o resto do filme.

Todo o primeiro ato, que cobre os anos iniciais de Michael como um astro da música com apenas dez anos, tem uma certa força muito por conta do ator mirim Juliano Krue Valdi, que interpreta o cantor na infância, junto do ótimo trabalho de Domingo como Joe Jackson, que se torna o melhor, e talvez único, detalhe do filme. A partir deste capítulo, quase tudo passa a ser relacionado aos processos criativos em relação à produção de seus primeiros discos solo, deixando pouco espaço para o drama pessoal familiar. 

Mesmo que a relação entre Michael e Joe seja uma das bases dramáticas, Fuqua não consegue criar uma transição fluida entre esse núcleo familiar e as produções musicais independentes  de Michael, que viriam a se tornar os discos Off The Wall e Thriller. Ainda assim, independentemente do diretor se mostrar muito interessado em mostrar esse lado criativo e artístico, todos esses segmentos são idealizados a partir de uma montagem que se aproxima muito de um videoclipe. Cortes rápidos, a música tocando de fundo, nenhum tipo de construção fílmica ou de desenvolvimento emocional do artista para sua arte, tornando-se algo retratado apenas de uma perspectiva industrial. 

Além disso, Fuqua parece ter uma certa obsessão em recriar alguns momentos famosos da carreira do cantor, que são enquadrados na mesma estética de videoclipe, sendo apenas um apelo nostálgico para os fãs. Isso soa completamente alheio e considera a imagem de Michael Jackson quase idealizada e, consequentemente, caricata. Jaafar Jackson, que aparentemente só conseguiu esse papel por conta de seu parentesco com o músico, faz o que lhe é requisitado, torna-se uma caricatura de seu tio, como um personagem que busca apenas o artista público e ignora completamente o ser humano por trás daquilo. Esses lapsos de humanidade são retratados apenas quando Colman Domingo entra em cena, tornando toda a atmosfera mais pesada e digna de uma tensão psicológica que o ator consegue extrair muito bem de seu personagem, ainda que não faça isso com relação à reação dramática de Jackson.

No fim, Michael se parece muito com Bohemian Rhapsody (2018), na maneira como o próprio filme lida com o seu protagonista, que antes de tudo, é um ser humano, mas que prefere retratá-lo da forma mais caricata possível, acompanhado de cinematografia que está apenas preocupada com estímulos nostálgicos.