Quando estava discutindo Milton Bituca Nascimento no grupo de WhatsApp da Plano Marginal, perguntei “por que sempre fazem documentários desse jeito?”, e a minha amiga e colega de escrita Paola Lira respondeu “porque nem tudo cabe no Fantástico”, e acho que isso resume não só esse filme como toda uma leva de documentários nacionais dos últimos anos. Há uma constante e incômoda confusão entre a linguagem cinematográfica e a linguagem jornalística, ainda que o presente longa seja uma ótima produção jornalística — e certamente iria constituir um grande especial do Fantástico – inevitavelmente esta coloca a outra linguagem em prejuízo.
Aqui, acompanhamos Milton Nascimento em “A Última Sessão de Música”, a turnê de despedida do cantor. Enquanto vemos vídeos dos shows e de outras apresentações, a diretora Flávia Moraes expõe um pouco da vida e da mágica desse grande músico, principalmente através da narração de Fernanda Montenegro e de convidados extraordinários, como Spike Lee, Sérgio Mendes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Pat Metheny, Quincy Jones, João Bosco, Gilberto Gil, Paul Simon, Mano Brown, Djavan e muitos outros.
Aquilo que salva o filme é justamente seu objeto: Milton Nascimento. Qualquer oportunidade de ver novas coisas desse homem é uma dádiva, por ser uma das personalidades mais especiais que esse país criou. O documentário assume essa dificuldade em abordar alguém tão mitológico ao citar tantas vezes como aquilo que ele fez é um mistério da humanidade e ao se abster de contar detalhadamente a sua história. Desse modo, a autora exime-se de explicar, a fim de homenagear.
E é nesse aspecto de homenagem que a diretora escolhe os convidados que irão falar sobre Milton, que vão desde diretores de cinema estrangeiros até parceiros de música aqui no Brasil. Estruturalmente, é um documentário bem protocolar, com uma narração e várias pessoas falando sobre o artista. Todavia, essa narração ser de Fernanda Montenegro e os convidados serem do tamanho que são deixa tudo mais interessante e torna, como falei antes, uma matéria jornalística em uma ótima matéria jornalística, justamente por nos dar essa oportunidade de ouvir grandes pessoas do Brasil afora.
Só é chato como o longa se contenta com uma mera homenagem e passa a ignorar qualquer linha narrativa após certo momento, assim como passa a achar suficiente ouvir depoimentos sobre os mais variados temas, sendo que a maioria apenas reafirmam como Milton é especial. Repetitivo e levemente irritante às vezes, consegue ser aproveitável em muitos trechos tão somente pelo carisma do protagonista e pela qualidade de suas músicas.
Milton Bituca Nascimento faz jus ao artista que dá nome ao documentário por ser uma linda despedida de sua carreira não só por parte do espectador como da diretora e dos convidados, claramente muito apaixonados pela obra do artista. Contudo, não passa de mais uma produção jornalística que se caracteriza como cinema apenas por ser exibido no ambiente homônimo e pela duração. Com isso, acaba sendo mais um documentário qualquer no meio de tantos outros.