Tudo o que eu sabia sobre Leonard Bernstein antes deste filme era que ele escreveu a música de Amor Sublime Amor (Robbins, Wise 1961). Agora eu sei que ele amava a esposa, teve três filhos com ela, mas era gay e tinha casos extraconjugais com jovens mancebos. De forma menos importante, ele era músico e, quem diria, maestro também.
Não acho que seja um problema focar em apenas um ou outro aspecto da vida de uma pessoa real em um filme, o importante é contar uma história coerente, com personagens interessantes e algum tipo de acontecimento notável que justifique a escolha da pessoa como digna de uma cinebiografia. O Bradley Cooper aqui tenta fazer os dois: contar a vida inteira do maestro e também uma história focada no casamento com a atriz Felicia Montealegre. O primeiro, mais generalista, é uma sequência de cenas sem conexão umas com as outras que listam episódios fundamentais, como a condução da orquestra na Catedral de Ely ou a descoberta de uma doença grave. Já o outro filme é um retrato íntimo de um casal que ama os filhos e escolhe permanecer unido apesar de não haver mais, talvez, um amor romântico entre eles, onde ela abdica disso e também do trabalho para cuidar da família, enquanto ele colhe os louros do sucesso.
Nota-se que o diretor tenta criar uma espécie de Fabelmans (Spielberg, 2022), com uma visão ingênua de Leonard Bernstein sobre os conflitos familiares e a conexão dele com a arte – inclusive há inspiração no cinema de Steven Spielberg e também Martin Scorsese, produtores do longa – mas falta foco e sobra firula visual. Aqui talvez entre um pouco do debate de o que é mais importante: forma ou conteúdo? A desconexão entre um e outro é gritante, especialmente quando o diretor opta por voltar às cores e segue uma direção mais padrão diferente de um primeiro momento, em que utiliza cenas lúdicas, uma câmera mais solta e fotografia em preto e branco.
Como ator, Bradley Cooper também não convence. Ele cria uma afetação na voz, meio fanha e anasalada (será que por causa da maquiagem?), que distrai e ainda por cima nada tem a ver com a fala real de Bernstein. Além disso, as emoções não nos cativam: por vezes ele demora demais em diálogos explicativos e em outros momentos falta calma para o espectador entender o que se passa com tantos pulos na passagem do tempo. Dificuldades que Carey Mulligan consegue contornar com a postura e expressões que não dependem do roteiro em si.
Sendo uma biografia com uso forte de maquiagem, cenas lúdicas de dança, foco em pessoa próxima da “mais famosa”, personagem com doença grave, homossexualidade enrustida, as iscas para o Oscar estavam presente e funcionaram, pois o longa está indicado em várias categorias incluindo melhor ator e filme. No entanto, para o espectador restou uma ou outra cena mais inspirada, enroscadas em uma narrativa dissonante.