O filme derivado da mais recente série de animação dos Looney Tunes (a do Patolino com calça de shopping), seria originalmente lançado direto para streaming, mas foi promovido e estreia na próxima quinta-feira nos cinemas brasileiros. Com inspiração direta em filmes de ficção científica da década de 1950 —  desde o título que remete a O Dia Em Que a Terra Parou (Wise, 1951) até a narrativa que lembra Vampiros de Almas (Siegel, 1956) — o filme, dirigido pelo criador do seriado Pete Browngardt, é o primeiro longa original inteiramente animado da turma a estrear nos cinemas.

A história segue Patolino e Gaguinho, dois amigos irmãos que após a partida do pai de criação, o fazendeiro Jim, passam por perrengues ao tentar salvar a casa da família, a qual está com um rombo no telhado e uma gosma verde pingando de lá. Enquanto busca uma maneira de ganhar dinheiro, a dupla conhece Petúnia, uma entusiasta de sabores que trabalha na fábrica de chicletes da cidade. Ela então arranja um emprego para eles, mas logo Patolino nota que há algo errado com a fabricação das guloseimas.

Esta não é a versão ranzinza do Patolino que geralmente entra em conflito com o sarcasmo do Pernalonga; aqui o pato é completamente caótico e é equilibrado pelo Gaguinho, mais calmo e certinho, mas que também aceita as maluquices do amigo. Apesar da dinâmica entre os personagens consistir nessa clássica dualidade, o mais interessante, desta vez, é a cumplicidade, o respeito e o carinho entre eles são ressaltados, apesar dos conflitos naturais, ao invés das diferenças serem usadas somente como comédia ou tensão forçada, para que possam fazer as pazes no final.

A animação está bem dinâmica, especialmente nas peripécias do Patolino e na ação quando as coisas saem do controle. Com uma mescla entre o traço clássico 2D e alguns detalhes em 3D (além de um fazendeiro Jim de pintura a óleo estático), há sempre algo de atrativo no design e na encenação, seja para fazer alguma piada sutil ou seja pelas cores e contrastes mesmo — especialmente o verde da gosma no telhado em contraste com o rosa dos chicletes.

Como um sopro de ar fresco nas animações lançadas recentemente, a comédia de Looney Tunes é perspicaz e despojada. As piadas apostam na ironia, em comentários sobre as situações e características dos personagens, com alguns momentos autoconscientes, e também no absurdo. O filme se distingue de outros recentes por não precisar usar referências à contemporaneidade para “falar a língua dos jovens”, como expressões e memes que já chegam antiquados ao filme ou menção deslocada a tecnologias específicas, por exemplo. Ainda assim, a animação se situa bem no tempo em que foi criada (em que existem influenciadores e bubble tea) e não vira uma paródia de outras aventuras dos Looney Tunes.

O ritmo é equilibrado com momentos alucinados e outros quietos, onde a relação da dupla é extremamente bem desenvolvida. A animação aposta no que já deu certo em décadas de histórias desses personagens e traz um frescor espertinho para o humor, além do primor dos designs e da ação. Vale mencionar também o excelente trabalho da dublagem brasileira, que mantém o estilo clássico das vozes e traduz muito bem as piadas originais. Foi uma ótima surpresa vinda de um estúdio que tem feito apostas duvidosas para o cinema.