A jovem atleta Sofia (Domenica Dias) descobre uma gravidez indesejada às vésperas de um jogo de vôlei que seria divisor de águas em sua carreira. No meio desse turbilhão de sentimentos, a única certeza que ela tem é de não querer ser mãe, o que a leva a um tortuoso caminho em busca da interrupção da gestação.

“Quando uma população parece constituir uma ameaça direta a minha vida, seus integrantes não aparecem como ‘vidas’, mas como uma ameaça à vida (uma representação viva que representa a ameaça à vida)” (BUTLER, Judith. Quadros de guerra: Quando a vida é passível de luto?).

Apesar de essa frase não ser dita em um contexto específico do aborto, ela é uma reflexão sobre o complexo contexto social da desumanização de um inimigo. Esse inimigo não precisa representar uma ameaça concreta; basta que o outro lado a imagine. Constituída essa situação, é essencial que ele seja despojado de todos seus atributos humanos e seja encarado meramente como o mal encarnado, afinal, lutar contra o mal é mais fácil do que adentrar nas complexidades dos fenômenos sociais.

Levante busca fazer o caminho contrário: reumanizar Sofia, não para a construir como mártir, mas para lembrar de sua existência indo além dessa difícil conjuntura. Quando adentra no íntimo da protagonista, o longa parece um terror psicológico, no qual o espectador sente junto a angústia e a fragilidade da personagem no meio do caos que sua vida se tornou. Sofia, vale dizer, não se resume às suas reações a esse horror. Pelo contrário, o filme inicia bem diferente: feliz, animado e até um pouco barulhento, características que aparecem em alguns momentos, até mesmo depois da descoberta da gravidez, ainda que a maior parte do segmento após a revelação inicial seja mais melancólica.

Infelizmente, a obra enfraquece quando se afasta desse núcleo. Em diversos trechos, parece que a diretora quis cumprir uma espécie de checklist de questões sobre o aborto, tentando cobrir a maior parte de questões possíveis em pouco tempo, e acaba atropelando certas questões, enquanto simplifica outras. Acho que a parte mais afetada é a relação da protagonista com o pai, que envolve negação, aceitação e tentativas de ajudar em uma perspectiva quase documental e com pouquíssimo potencial dramático, como também ocorre em outros momentos do longa.

Esses problemas de ritmo e de abordagem de alguns centros temáticos não retiram, porém, a força de Levante. A trajetória de Sofia é de uma angústia ímpar, e o contraste da desvalorização de sua humanidade por parte dos moralistas que a colocam como inimigo com a suposta defesa da vida é de imensa indignação. Defendem a vida, mas que vida? Tanta atenção ao possível aborto, vinda das mesmas pessoas que nunca deram as caras para prevenir, apoiar ou confortar Sofia.

Apesar desse isolamento em face dos moralistas da trama, fico feliz em como Levante não se limita a uma perspectiva individual. Para um ser coletivo como é o humano, o sofrimento não é individualizado e tampouco é a esperança. Os amigos, o pai, a treinadora, estão todos ali, e em um filme tão angustiante quanto esse, eles são alguns dos pilares mais importantes para reconstruir a humanidade de Sofia.