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É sempre uma experiência curiosa quando um cineasta, conhecido por um tipo de narrativa, aposta em uma empreitada oposta. Depois de lançar A Baleia (2022), talvez um dos seus filmes mais melancólicos, Darren Aronofsky chega com Ladrões em uma abordagem que flerta constantemente com o cinema de Guy Ritchie. Mas será que é um filme totalmente desprovido das características que tornaram Aronofsky um diretor tão apreciado?
A resposta é bem clara depois da projeção: não! Por mais que estejamos falando de uma produção mais comercial, bem-humorada, dinâmica e até leve se comparada às suas obras anteriores, a temática que sempre percorreu a filmografia de Aronofsky se encontra aqui: a obsessão. Se Max Cohen era obcecado pelos padrões matemáticos do Universo em Pi (1998) e Nina Sayers buscava a perfeição de sua performance em Cisne Negro (2010), o Hank Thompson de Austin Butler se aproxima mais dos personagens de Mickey Rourke e de Brendan Fraser, em O Lutador (2008) e no já citado A Baleia, respectivamente. Sua vida se baseia na obsessão pelo auto-punitivismo, por conta de um evento passado traumático que tirou a vida de seu amigo e o inibiu de prosseguir como jogador de beisebol profissional.
Esse é o pano de fundo de uma narrativa que, à primeira vista, é sobre um jogo de gato e rato entre diferentes facções criminosas por uma quantia exorbitante de dinheiro, mas que guarda, consigo, a superação rocambolesca dos traumas e inseguranças de um jovem perseguido pela Morte. A cidade de Nova York, cosmopolita que só ela, é a arena perfeita para essa fuga de Thompson contra a Máfia russa, um grupo criminoso judaico, policiais corruptos, britânicos traiçoeiros, entre outros. Junto de Joias Brutas (Safdie, 2019) e Anora (Baker, 2024), talvez essa seja a obra que mais explora o caos urbano da metrópole, partindo de um ponto distinto.
Nesse caos, a relação com Yvonne (Zoë Kravitz) – não coincidentemente uma paramédica – é um porto seguro para o protagonista e, quando ela é morta, seu mundo fica ainda mais violento e arriscado. Porém, isso não deixa de ser um clichê bem incômodo, especialmente em um momento onde as discussões sobre o papel feminino no cinema estão tão em alta. Considerando como Aronofsky vem tratando suas personagens femininas nos últimos filmes (o exemplo mais bizarro é aquela vivida por Sadie Sink em A Baleia), não deixa de ser frustrante que uma personagem com tanto potencial como Yvonne entre no filme apenas para ser a parceira morta que motiva a mudança de seu namorado.
Mesmo assim, Ladrões é um filme divertido. Longe de ser um dos destaques da filmografia de Aronofsky, ao menos entende que é um filme com perspectivas mais comerciais e em nenhum momento mergulha na ambição temática, usando-a mais como um pretexto para dinâmicas legais entre o elenco.