Kokuho – O Preço da Perfeição foi o enviado do Japão para o Oscar deste ano e, apesar de não ter entrado entre os indicados de filme internacional, está concorrendo a melhor maquiagem. De acordo com o diretor Lee Sang-il, o filme, baseado em um livro de mesmo nome, de Shuichi Yoshida, publicado em 2018, teve um primeiro corte de quatro horas antes de chegar ao final, de quase três horas, para adaptar o livro de 800 páginas. A história segue Kikuo (Ryo Yoshizawa) desde a infância até sua ascensão ao topo da hierarquia do teatro Kabuki e o status de Kokuho, que significa “tesouro nacional”.

Yoshida foi inspirado pela peça Tsumoru Koi Yuki no Seki no To (algo como “a neve do amor acumulada no portão da montanha”), que é apresentada no filme Crisântemos Tardios (1939), de Kenji Mizoguchi. A partir disso, Yoshida passou um período imerso no mundo do Kabuki, assessorado por Nakamura Ganjirō IV, descendente de uma longa linhagem de atores de Kabuki, que também proporcionou um treinamento intensivo aos atores do filme.

Para quem nunca ouviu falar, o Kabuki é uma arte japonesa, patrimônio imaterial da humanidade, que remonta ao século XVII e consiste em uma mistura de teatro, música, dança e pintura. As peças têm estilos distintos, com pouca variação desde sua criação, podendo ir para um drama histórico ou para um estilo específico de dança, e sempre performadas apenas por homens, que também fazem as personagens femininas. Há também uma hereditariedade dentro das escolas tradicionais, em que os grandes atores herdam os nomes de seus predecessores, em geral do próprio pai, garantindo a permanência do legado de suas estrelas por décadas ou até séculos. 

Isso ajuda a compreender a trama que vai explorar esse universo sob a perspectiva de Kikuo, que na década de 1960, após a morte do pai, um chefão da Yakuza, é adotado e treinado pelo grande Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe), que é o cabeça de uma conceituada escola de Kabuki. Porém, por mais que tenha o desejo de se tornar o melhor onnagata (personagem feminina) e vingar a morte do pai biológico, o jovem Kikuo não consegue se sentir merecedor de carregar o legado da família e passar por cima do irmão adotivo e legítimo herdeiro de Hanai Hanjiro II, Shunsuke (Ryusei Yokohama). 

Com essa premissa inicial, e entendendo a importância do Kabuki para aquela família e para uma sociedade ainda com cicatrizes da Segunda Guerra Mundial, as possibilidades de conflitos interessantes são as mais diversas: há a questão da vingança da Yakuza e o luto pelo pai, a aceitação na nova família, a pressão para assumir a sucessão do nome do pai adotivo, o treinamento para ser melhor em uma arte que exige muita disciplina, rigidez e precisão. O filme até assume, especialmente de início, um ritmo e montagem semelhante a outros com esse tipo de personagem perfeccionista, como Whiplash (Chazelle, 2014) ou Cisne Negro (Aronofsky, 2010), sem o abuso psicológico, então parece que vai seguir por esse caminho, mas não. 

Quando Kikuo se estabelece como ator, o longa adota um estilo de cinebiografia (ao ponto em que eu acreditei tratar-se de uma), com cenas pontuais e cortes temporais mostrando a ascensão do artista e suas relações interpessoais. O foco passa a ser sobre os acontecimentos, em detrimento do desenvolvimento psicológico ou até de causas para algumas consequências – a sensação é de que nada é merecido. Um exemplo é o conflito entre Kikuo e Shunsuke, onde o segundo apenas decide, aparentemente de uma hora para outra, que ele quer abandonar o Kabuki por não ter a preferência do pai. Nós espectadores sabemos disso por ouvirmos o pai falando com a mãe sobre o filho, mas não fica claro que o jovem soubesse dessa preferência do pai – e mesmo esse rompimento entre os dois jovens parece não levar a lugar nenhum mais tarde, visto que após alguns anos de afastamento os dois irmãos se entendem, somente porque é o que a história precisa. Não há rancor, não há arrependimento, não há carinho, parece um conflito desprovido de sentimento.

É dessa forma que a narrativa prossegue ao longo do filme, sem um ponto de tensão entre o protagonista e os outros personagens, ou até dentro dele mesmo. Kikuo parece apenas ser levado para onde é necessário para a trama, sem muita agência em suas atitudes e sem demonstrar, para além de uma bebedeira pontual, suas emoções. A exceção é quando a ação toma o palco e as peças são encenadas: essas sim conseguem transmitir os sentimentos daquelas pessoas, apesar de serem momentos pontuais em um longa de quase três horas.

O Kabuki é, por si mesmo, uma forma de arte muito expressiva. Seja pela grandiosidade das maquiagens, cenários e figurinos, seja pelo exagero da movimentação de palco ou da entonação das vozes. Característica que ajuda demais no que, de outra maneira, seria um filme apático. Talvez pela responsabilidade de adaptar um romance tão querido e tão grande a produção quisesse manter o máximo possível de cenas do livro, tornando o ritmo do longa corrido. Seja como for, para os japoneses funcionou muito bem, visto que o filme é o maior sucesso de bilheteria para um filme live action em 22 anos. Para mim, fica a decepção de uma obra belíssima em alguns momentos específicos entremeada de monotonia na maior parte do tempo..