Em Fúria do Dragão (Wei, 1972) Bruce Lee usa a força do ódio unida a seu talento em kung fu, arte marcial chinesa, para destruir uma escola de caratê, arte marcial japonesa, e vingar a morte de seu professor. Na época esse embate foi emblemático pois simbolizava também a resistência chinesa à dominação japonesa, que em décadas anteriores promoveu um dos maiores genocídios do século XX na região. Karatê Kid: Lendas chega para selar a paz e acabar com a rivalidade entre as duas modalidades de luta.
Neste segundo filme (ou sexto) da franquia as escolas do sensei Miyagi (Pat Morita) e do shifu Han (Jackie Chan) já têm uma história de amizade, sendo dois troncos da mesma árvore — dos bonsais do sr. Miyagi, que também servem de símbolo para o dojo Miyagi-Do da série Cobra Kai. Aliás, esta é uma franquia que não tem vergonha de adaptar qualquer detalhe dos filmes dos anos 1980 para encaixar em uma nova narrativa de ancestralidade. Aqui, novamente, isso é feito para criar essa relação entre os dois mestres, com uma cena de Karatê Kid 2 (Avildsen, 1986) servindo de abertura do longa. Da mesma forma que na série Cobra Kai, ao mesmo tempo que engessa as novas histórias, também faz um tributo respeitoso por sempre aproveitar ao máximo o material original.
Por outro lado, o protagonismo é de Li Fong (ou Xiao Li, interpretado pelo ótimo Ben Wang): um jovem que tem que se mudar de Beijing para Nova York com a mãe (Ming-Na Wen) após uma tragédia familiar e, assim, também abandonar as lições de kung fu com o shifu Han. Já nos Estados Unidos ele faz amizade com Mia (Sadie Stanley) e seu pai (Joshua Jackson), ex-boxeador que é dono de uma pizzaria, mas é atacado pelo ex-namorado da garota, o lutador de caratê e atual campeão do torneio dos Cinco Bairros, Connor (Aramis Knight). Sem mudar a fórmula consolidada dos filmes da franquia, o jovem Li Fong deve então unir o kung fu ao caratê para enfrentar o bullying e ajudar os novos amigos.
De início, me perguntei o porquê da escolha de Nova York e não Los Angeles, como é nos outros longas dos anos 80 e na série, mas a cidade grande é bem integrada na composição das cenas: seja em uma passeio de moto que serve para os dois amigos se conhecerem melhor, ou até para enfatizar o cenário urbano da competição de lutas marciais, bem como do boxe — e também o apreço por uma boa pizza. Em alguns momentos fiquei esperando aparecer algum herói da Marvel (tem até uma piadinha com isso).
O filme permite que os novos personagens e suas relações sejam bem desenvolvidas antes de retornar com o senhor Han e introduzir Daniel San (Ralph Macchio) na narrativa. Com eles temos as ótimas sequências de treinamento, mas desta vez com uma diferença, pois Li já sabe lutar, então não precisa pintar cerca ou colocar e tirar o casaco, mas esses elementos já tradicionais foram guardados para o treinamento de outra pessoa, já que tudo pode ser kung fu. É curioso também ver os dois estilos unidos em uma mesma coreografia, visto que o caratê (dos filmes) é bem vertical e de golpes mais precisos, enquanto o kung fu tem uma plasticidade e movimentos fluídos. Como já dizia Bruce Lee, e Li Fong ressalta também no filme: seja água.
Ben Wang é extremamente carismático e excelente em todas as cenas de luta. Ele tem treinamento em teatro musical e chegou a praticar lutas, como taekwondo, e isso é notável. Ajuda a direção, que não precisa disfarçar e pode optar por planos mais abertos, o que deixa os movimentos mais claros e bonitos, como uma dança mesmo — apesar de por vezes escolher o estilo de cortes rápidos e closes nos embates. Nem todo filme pode ser um clássico de Jackie Chan e ter semanas para gravar uma única cena também.
No final das contas, é um filme que funciona como continuação dos outros longas, epílogo de Cobra Kai e ainda um reboot da franquia. E será bem divertido ver o que esse carinha do barulho, que se mete em altas confusões da pesada, em um clima de muita azaração, vai aprontar numa próxima.
PS: você que é fã, aguarde o easter egg do final.