Alfred Hitchcock pode ser o “Mestre do Suspense”, mas acho essa alcunha nada mais que reducionista. Nenhum problema em ser mestre de um gênero, mas Hitchcock é quase a personificação do cinema moderno, especialmente no cenário hollywoodiano. E, se nos anos 1940, o diretor já apresentava cartas na manga ao desenvolver thrillers cada vez mais ambiciosos e dinâmicos não apenas em seu conteúdo mas especialmente em sua forma (basta perceber a construção de Festim Diabólico, de 1948), há duas obras gigantescas na década posterior que firmaram seu papel como talvez o diretor mais importante da História.
A primeira delas, Janela Indiscreta, na superfície, é um suspense extremamente básico e sem grandes inovações. É muito difícil entender, em retrospecto, sua importância depois de tantos descendentes ou imitações. Mas depois de assistir ao filme inúmeras vezes, uma característica muito importante se torna cada vez mais clara: não é um longa sobre assassinato, é um longa sobre CINEMA! Na mente de muita gente, acredito eu, o símbolo do voyeurismo, não apenas aqui no filme como também fora dele, está nos binóculos. Mas percebam como o protagonista Jeff (James Stewart) logo troca esse instrumento por sua câmera de trabalho, um dispositivo que alcança uma distância muito maior e divide mais esse mosaico voyeurista de Nova York.
Afinal, o que temos é exatamente isso. Se hoje nos acostumamos aos filmes antológicos, que alternam entre diferentes histórias que podem ou não se cruzar, Janela Indiscreta faz o mesmo aos olhos não só de Jeff como de Lisa (Grace Kelly) e Stella (Thelma Ritter). Temos o romance moderno e cínico entre o casal protagonista (que serve como uma “trama-moldura”), um olhar ao romance clássico e sugestivo com os recém-casados, a tragédia com final edificante da Srta. Coração Solitário (Judith Evelyn) com o músico, a comédia de costumes com punchline da bailarina e, é óbvio, o thriller de assassinato do casal Thorwald. Tudo isso aos olhos de Jeff a partir do dispositivo que usa para, costumeiramente, sair da zona de conforto, motivo que também usa para não assumir compromisso com a estonteante Lisa.
Porém, se em seu trabalho, Jeff usa sua câmera como produtora de imagens que o colocam em risco, em seu repouso usa a lente teleobjetiva como forma de se distanciar cada vez mais de qualquer risco e, ao mesmo tempo, se posicionar bem próximo às intimidades de seus vizinhos, como um espectador que acompanha a vida dos outros sem temer pela sua própria, o prazer de consumir perigo sem atravessá-lo, a atração da fofoca, a paixão pelo voyeurismo. E não deixa de ser curioso como todas as histórias as quais “assiste” parecem tratar de relações afetivas, de sua forma mais idealista à mais macabra e trágica. Todas se relacionam, em algum grau, aos seus espectadores, o casal que “convida-se para ir ao cinema” e tentar resolver suas diferenças.
Janela Indiscreta não é sobre assassinato, é sobre romance. Os pontos que separam Jeff e Lisa são suas vivências e os preconceitos que Jeff tem sobre sua inegável amada, esta que parece reforçar os motivos de seu amado (e o julga pela sua “perversão”) até o momento em que embarca com ele nesse interesse distanciado e oportunista pelo próximo. Embarca tanto que é sugada pela tela e se torna personagem ativa desse thriller intenso, ganhando não apenas respeito por parte de Jeff como também fascinação. A princesa de Greenwich Village tinha se tornado detetive sagaz e sua aliada no voyeurismo, não tinha medo nenhum de se arriscar. Jeff enxerga, aí, a mulher com quem quer viver o resto de sua vida.
Mas se Janela Indiscreta definitivamente não é sobre assassinato, o suspense não funciona? Longe disso! O foco, em minha visão, está na abordagem metalinguística do cinema e no romance moderno entre Jeff e Lisa, mas o assassinato está dentro do longa e deve ser considerado com certeza. Afinal, dos pequenos “curtas” que compõem a vizinhança do protagonista, esse definitivamente é o mais importante e o que mais move o “filme” de sua própria vida com a socialite. E é aqui que Hitchcock também brilha mais em sua abordagem formal. Existe um controle de sombras e blocagem que complementam demais essa experiência de perspectivas.
O suspense está no que o espectador não consegue ver e mantém apenas em suas teorias mais sórdidas, que podem estar erradas. A presença ambígua do tenente Doyle (Wendell Corey) é fundamental justamente para fazer o espectador intra-filme (Jeff e Lisa) e o espectador extra-filme (o público) se questionarem sobre suas próprias suspeitas, quase como um elemento do cinema noir que se faz presente.
Janela Indiscreta então surge como um filme de diversas camadas. Na superfície, temos um filme sobre assassinato; no manto, um romance moderno sobre um casal de realidades diferentes que se fundem em seu arco; e, no núcleo, um filme sobre o ato de fazer e consumir cinema e suas diferentes abordagens, que perpassam por inúmeros gêneros e subgêneros. Além disso, explora a natureza voyeurista e majoritariamente masculina da imagem em movimento que retrata a vida de outros, das poucas roupas de uma bailarina sensual à testemunha de um feminicídio brutal. As janelas desse único pátio de Greenwich Village servem como telas, em suas diferentes razões de aspecto coerentes com suas respectivas tendências temporais. O mais puro suco da potência dramática que atravessa as lentes de uma câmera. Só temos que tomar cuidado para o que enxergamos como ficção distante não nos aproximar a ponto de nos matar.