É muito comum a coincidência de dois filmes com premissas muito semelhantes lançando no mesmo ano. O caso de 1997 entre O Inferno de Dante (Donaldson) e Volcano: A Fúria (Jackson) e aquele de 1998 entre Impacto Profundo (Leder) e Armageddon (Bay) são os mais marcantes. Recentemente, isso aconteceu mais duas vezes: no cinema de ação, tivemos Contra o Mundo (Mohr) e Fúria Primitiva (Patel), enquanto no cinema de terror fomos presenteados com a ótima prequel A Primeira Profecia (Stevenson) e este Imaculada.
Ambos possuem a mesma premissa e um desenvolvimento até semelhante, abordando a forma como a Igreja Católica usa dos corpos femininos como meio para benefício próprio, seja ele qual for e independente do aval da mulher. Porém, se no filme de Arkasha Stevenson, o sobrenatural era aceito dentro de seu universo diegético, gerando todas as experiências aterrorizantes que a personagem de Nell Tiger Free enfrentava, aqui o diretor Michael Mohan põe sua musa Sydney Sweeney contra uma trama que tenta se enraizar demais no realismo sem reconhecer o absurdo de suas revelações e progressão.
Isso gera um conjunto de estranhezas que, olhando em retrospecto, jamais parecem se transformar em uma unidade. Mohan constantemente faz uso de diversos signos e práticas do terror sobrenatural de forma gratuita, desinteressada e sem conexão com a racionalização que vai apresentando ao longo de seus 90 minutos de projeção, culminando em um desfecho que, se acaba soando como o único momento de real impacto do filme, é justamente porque foge de tudo o que havia sido exercitado até ali enquanto forma. Um flerte que alcança mais esses filmes de “terror elevado”, que buscam acima de tudo o choque e a polêmica, servindo à ideia do filme ou não.
Porém, há um elemento em Imaculada no qual Mohan parece realmente interessado: o potencial dramático de Sweeney. Não assisti a The Voyeurs (2021), parceria anterior entre ambos, mas aqui o diretor insiste em uma abordagem intimista de sua personagem, com um frequente uso de primeiros planos que – aí sim! – harmonizam com o desfecho citado acima, uma síntese de desespero que recai todo na personagem e que a intérprete entrega de forma quase animalesca. O problema é que não adianta uma personagem bem interpretada com potencial se tudo o que a rodeia parece tão vazio.
A própria temática da misoginia dentro da Igreja, diferente de A Primeira Profecia, é apenas trabalhada a partir de diálogos que mais parecem tweets raivosos que foram reescritos diversas vezes antes de serem postados do que uma real ideia construída por seu realizador. A personagem de Benedetta Porcaroli, por exemplo, é a que mais sofre a partir dessa verborragia aborrecida, e uma das linhas que fala figura entre um dos momentos mais ridículos de 2024 até aqui (“É claro que acredito em Deus. O mundo é cruel demais, obviamente foi criado por um homem.”).
De certa forma, esse cinismo adolescente dos diálogos nada mais é do que mais um sintoma da condução hiperracional de Mohan para com sua premissa absurda que, nas mãos de outra pessoa, poderia ter recebido um tratamento interessantíssimo. Já aqui, seu desinteresse por tudo que rodeia Sweeney é tanto que podemos dizer que sim, o título é extremamente fiel à execução, já que a protagonista permanece imaculada nesse poço de mediocridade que é Imaculada.