Desde seus primeiros anúncios, o longa de estreia de Dev Patel na direção recebeu a alcunha de “John Wick indiano”, algo compreensível, mas equivocado, já que se trata de uma produção hollywoodiana falada em inglês e dirigida por um astro que, mesmo com descendência indiana, nasceu em Londres e se popularizou com uma série (Skins) e um filme (Quem Quer Ser um Milionário?, Boyle, 2008) também britânicos.
Mas por que esse disclaimer é importante? Bom, ao longo das 2 horas de duração de Fúria Primitiva, o que vemos é realmente uma espécie de spin-off não-oficial, mas, de certa forma, assumido da franquia estrelada por Keanu Reeves. Afinal, citações diretas são feitas, armas são referenciadas e até mesmo as vestes do protagonista e seus cabelos e pelos faciais servem quase de reflexo àquela quadrilogia. As maiores diferenças aqui são a abordagem das cenas de ação e o contexto sociopolítico em que se situam: uma Índia dominada por um governo fascista e supostamente teocrático.
Acompanhamos então um homem sem nome e sem recursos que busca vingança pelo que teria acontecido com sua mãe e seu vilarejo anos antes, premissa essa que também soa quase idêntica ao recém-lançado Contra o Mundo (Mohr, 2023), com o qual o projeto de Patel compartilha certa abordagem da ação mais frontal. Afinal, diferente do “balé da morte” encenado e cada vez mais potencializado por Chad Stahelski em John Wick, onde a ação surge mais limpa e bem enquadrada para gerar quase uma performance teatral a partir dos tiros e porradas, aqui temos uma mescla entre planos muito utilizados na animação japonesa e uma dinâmica de enquadramentos e zooms muito comuns não só a jogos de videogame como também ao próprio cinema de artes marciais asiático, seja de Bollywood, seja até mesmo o de Hong Kong.
Ou seja, percebe-se uma tentativa patente de Patel (trocadilhos à parte!) de frisar as origens orientais de seu filme e até mesmo – por que não?! – suas próprias. Não à toa, o diretor também insere momentos mais oníricos que ligam a espiritualidade de seu protagonista às suas habilidades, além de também traçar um paralelo entre o personagem e um herói antigo de seu folclore, que, igualmente, o conecta com a vingança que busca pela morte de sua mãe. Tudo isso é interessante, mas acaba funcionando bem mais como construção de um universo próprio, como a “lore” de um videogame, do que como reafirmação cultural de um povo. Nessa visão, toda a ideia de um filme que passa por “fases” a fim de alcançar dois “subchefes” até chegar ao “chefão” final, que se encontra no topo de uma “torre”, é muito eficiente e ajuda o público em seu investimento na jornada do personagem, o que é reforçado também pela constante posição da câmera atrás de seus ombros.
O que prejudica todos esses elementos como reafirmação cultural acaba sendo o disclaimer que iniciou este texto. Tendo estrelado e provavelmente se acostumado com filmes ocidentais, de visões ocidentais, Patel acaba caindo em vícios narrativos e estilísticos que acabam vitimando a Índia com mais uma retratação caricata de seu povo. Afinal, com tudo o que foi falado acima, da estrutura “gamificada” à ação estilizada, sem contar os vilões caricatos e unidimensionais, como o diretor espera que o público reaja a uma cena como a de um veículo em alta velocidade que atrapalha o sono de crianças de rua? A câmera de Patel se aproxima das crianças sem-teto como se quisesse perceber a existência delas, mas depois se esquece de qualquer elemento minimamente relacionado, como se a mera consciência de que a Índia tem pessoas com situação de rua já servisse como comentário social perdido no meio de um filme de ação escapista.
E isso se repete algumas vezes, como ao tratar do tráfico humano ou ao mostrar uma criança no meio de um bordel sujo, elementos que também eram muito comuns no filme supracitado de Danny Boyle e em Lion (Davis, 2016), também estrelado por Patel, fatores que parecem colocar Fúria Primitiva entre os representantes da tal “cosmética da fome”, conceito usado por Ivana Bentes em um ensaio de 2001 e que vale a pesquisa. Já o tratamento do filme a personagens transgêneros parece ter um compromisso muito maior com a tal “lore” citada anteriormente do que com qualquer comentário social pretensioso, sendo até utilizado como artifício da ação do filme.
Dito isso, devo dizer que gostei de Fúria Primitiva enquanto um filme de ação que enfrenta seu gênero de forma frontal, empolgante e em uma mistura de influências tão louca que parece realmente ter saído de um videogame. Agora, quando seu realizador tenta deixar seu longa mais importante socialmente do que ele precisava ser, seus comentários e apontamentos são tão supérfluos que talvez fosse mais benéfico abrir mão deles. Eis o maior equívoco da alcunha “John Wick indiano”: aquela franquia ainda tem muito mais coragem de depositar-se inteiramente na ação.