Diante da ascensão de fumaças espectrais, o plano inicial de Harakiri nos evidencia a armadura vermelha do Clã Iyi, o símbolo imponente e místico do poder inabalável da honra do samurai imortalizada em um ícone que, apesar de soar como uma ídolo quase mitológico para aqueles que aderem a tal honra, se encontra vazia. A figura do guerreiro japonês sempre partiu de uma imagem idealizada pela história, sendo ele um sinônimo de bravura e disciplina que sobrepunha qualquer outra virtude para suas vidas. Esse senso de dever muitas vezes implicava a realização de pesadas e violentas injustiças, mas não a violência física já esperada pelos conflitos, mas sim a degradação moral desses que não optaram por abrir mão de sua imagem como um samurai em prol de uma honra oca. Harakiri nos conta uma história que põe essa questão humana em evidência, a partir de uma narrativa que rejeita o código do samurai.
Hanshiro Tsugumo (Tatsuya Nakadai) um ronin que, aparentemente, se encontra em uma posição deplorável de pobreza, buscando para si uma redenção espiritual a partir da realização do suicídio ritualístico do harakiri, um homem com uma ausência de brilho em seus olhos para a vida miserável que fora jogado após a queda de seu mestre anos antes. Nada sabemos sobre Hanshiro, nada além de seu desejo de morrer, um pedido que, até então, parece deter uma honestidade legítima por parte do ronin. É assim então que o jardim do Clã Iyi se torna o palco de um manifesto vingativo contra a injustiça ardilosa imposta pela ordem social comandada por uma honra esvaziada de significado.
Masaki Kobayashi é bastante formalista em sua abordagem narrativa, usando esse contraste estético dos samurais empregados que, de certa forma, atuam como os vilões do longa, aderindo a integridade injustamente imposta aos ronins miseráveis, julgando e olhando com desdém para aqueles que não mantém seus símbolos materiais que representam seu empoderamento como um guerreiro, sem ao menos enxergar essa violenta diferença de realidade que os difere. Não apenas construindo essa diferença de classes a partir de uma caracterização estética, Kobayashi busca uma estrutura que disseca a perspectiva da honra do protagonista, se inicialmente Hanshiro parece não possuir outra intenção além do ritual, gradativamente, a partir da narração de sua própria história pelos flashbacks, onde o diretor faz questão de exaltar esse sofrimento profundo ocasionado pela estrutura social que lhe é imposta, potencializando ao máximo o efeito melodramático maravilhoso de seu longa.
Os enquadramentos de Kobayashi adentram a mente perturbada desses guerreiros, deterioradas pelos costumes estabelecidos que os fazem encarar a morte com uma falsa coragem que os atormenta, sucessivamente se fechando de um plano aberto para um close direto nas feições de medo de seus personagens. Sua mise-en-scéne, unida ao seu jogo de planos, concede uma forte ênfase aos movimentos, cada passo dado, cada espada desembainhada, cada manifestação corporal de desespero é atribuída um efeito dramático carregado, como se tudo e todos servissem ao poder surpreendentemente pungente de sua narrativa, onde nada deixa de aderir à vigorosa capacidade do cinema de contar uma história tão poderosa acerca de nossa humanidade, além de códigos e práticas tão respeitadas e mantidas que abandonam sua noção para nós humanos.
No fim, a armadura vermelha de Iyi é jogada violentamente ao chão da grande mansão de seu clã, o símbolo de toda uma sociedade moldada sobre regras impostas pela falsa honra, completamente amaldiçoada por injustiças sociais que privilegiam aqueles que se encontram moralmente protegidos pela tal honra. Mesmo com o esforço de Hanshiro, sua investida apenas serviu como um próprio ritual de redenção de seu espírito para o além, pois a honra e a imagem de um clã sobrepõe qualquer coisa, até mesmo a vida e a integridade de seus membros, e assim, dizendo adeus a noção de humanidade.