Esse filme despertou em mim uma variedade de emoções, ao ponto de ser difícil de escrever sobre. Ele fala de um regime autoritário cujos pormenores da história eu desconheço, para além de estabelecer uma teocracia e perseguir minorias e quem mais discorda do governo, como o próprio diretor Jafar Panahi, que neste momento está em prisão domiciliar no Irã. Infelizmente, por mais “regional” que Foi Apenas Um Acidente seja, os temas são bem conhecidos por todos os países que já sofreram com intervencionismo e imperialismo, golpes de Estado e ditaduras.

O filme parte de uma dúvida moral muito pertinente: há perdão para torturador? E dessa forma, outras questões vão surgindo como: quando as vítimas sobrevivem com traumas irreversíveis, é justo permitir que torturadores vivam uma vida mundana, numa boa casa, com esposa e filhos? E a família deles também merece punição? Por outro lado, até que ponto é válido fazer justiça com as próprias mãos? A vítima neste caso torna-se igualmente cruel?

O desenvolvimento da narrativa propõe respostas para essas perguntas, mas principalmente demonstra como nenhuma escolha é fácil quando se está falando sobre vidas humanas e que ações simples podem ter consequências inesperadas. O título do filme, por exemplo, remete ao acidente que desencadeia a trama: uma família, pais e filha, voltam de carro para casa, mas sem querer o pai (Ebrahim Azizi) atropela um cachorro e precisa parar em um mecânico para seguir viagem. Lá o trabalhador Vahid (Vahid Mobasseri) reconhece o som da prótese de perna do motorista sendo arrastada pelo chão, como de seu torturador, Eghbal, e decide que irá sequestrá-lo e matá-lo. Porém, ao confrontar o homem no meio do deserto, Vahid fica em dúvida se é ele mesmo e vai buscar ajuda de outras vítimas para identificá-lo.

É então que o filme adquire um tom cômico, sarcástico, à medida que cada personagem embarca na van de Vahid, com o sequestrado desacordado e preso em um baú, em um “quase road movie” passando pela cidade. As situações vão sempre escalando o humor, entre a excitação pelo perigo e interações que beiram o absurdo, bem como em momentos catárticos e outros mais calmos, que demonstram a conexão entre os membros deste grupo inusitado a partir do trauma comum.

Essa característica de misturar leveza com seriedade, pessoas perseguidas unidas por um passado desafiador, além da história estar presente em um regime autoritário, lembra muito o sentimento de outro premiado em Cannes dessa temporada: O Agente Secreto (Mendonça Filho, 2025). Os dois filmes conseguem unir muito bem o medo com o lúdico e colocar em pauta os sistemas de seus respectivos países, seja em forma de denúncia ou de memória, ressaltando o perigo para os cidadãos comuns. Os longas também se assemelham na maneira como encerram suas narrativas, sem fechamento definitivo e desafiando o espectador a continuar a reflexão mesmo depois de sair do cinema.

É aí que entra a mistura de sentimentos. Em um momento estamos rindo de uma abordagem policial corrupta, em outro emocionados pelo desabafo de uma noiva, e ao mesmo tempo apreensivos pelo destino daquelas pessoas e sem um alívio para todo aquele caos – sendo mais aterrorizante quando o filme proporciona respostas do que quando as dúvidas ainda estão no ar. Seriam as risadas, no fim das contas, de nervoso?

Foi Apenas Um Acidente é um turbilhão de ideias e emoções, imagino que parecido com o que se passava na cabeça de toda a produção, que teve que filmar escondido do governo iraniano. É uma denúncia pungente ao regime, mas no fim das contas fala mais sobre como seguir vivendo, mesmo com os traumas irreversíveis causados por seus agentes.