A permanência da memória é um dos temas recorrentes na obra do diretor Kleber Mendonça Filho e é trabalhado em seu mais novo e aclamado longa: O Agente Secreto. Desta vez, ele cria uma narrativa com idas ao passado e ao futuro para montar um quebra-cabeças fragmentado sobre a vida de Marcelo (Wagner Moura), um professor que volta para Recife para se reconectar com o filho e buscar um lugar onde eles estejam seguros. Luta de classes, corrupção e a cidade de Recife também se fazem presentes neste filme que levou três anos para ser escrito e se passa majoritariamente durante o ano de 1977, durante governo de Ernesto Geisel.

O filme desperta a curiosidade sobre o personagem com um emaranhado de fios que não realmente se desfaz. É uma espécie de exercício proposto pela narrativa em que o espectador não tem respostas fáceis e explicadinhas, tendo que montar sozinho a sequência dos fatos e ainda entender que existem lacunas que nunca serão preenchidas. Como a própria memória mesmo, composta de momentos e pontos de vista, com falhas e desconexões, cortes abruptos, ou até da forma como menciona um dos personagens: “eu lembro do que me contaram que eu fiz”.

A memória também pode ser tangível quando preservada para além da lembrança individual, seja por meio de objetos ou no ato de dividir uma experiência. Recordar é coletivo e parte da construção social. O filme se dispõe de conversas descontraídas e entrevistas, além de ressaltar o ato de ouvir o outro como fundamental para estrutura do que não será esquecido. “Você lembra mais do que eu” diz um personagem ao ter uma história contada a ele por alguém que não a viveu também. O longa provoca sobre o que é verdade e quais são as memórias que não devem ser modificadas ou deixadas de lado por tocarem em assuntos muito sensíveis. Paralelo à memória está o esquecimento.

Diferente de outro filme brasileiro recentemente aclamado internacionalmente, Ainda Estou Aqui (Salles, 2024), o longa de KMF, apesar de inserido também no período histórico da ditadura militar, expõe as questões tangentes ao regime, como a corrupção policial e a banalidade da morte — mais como pano de fundo e não por ação direta — com a intenção de propor um paralelo também com os últimos dez anos do Brasil. O Agente Secreto parece que, de certa forma, implora ao espectador que não se permita esquecer do presente quando relembra o passado. Enquanto um utiliza uma família afetada por ações diretas dos militares como âncora para discutir e lembrar da ditadura, o outro demonstra como indiretamente o regime afeta os cidadãos comuns, impondo medo e vigilância generalizados.

No meio disso tudo ainda há espaço para um terror lúdico que invoca as narrativas malucas inventadas e espalhadas por aí. Aliás, o diretor, durante debate no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, contou que essa sequência foi criada a partir de uma matéria que saiu em um jornal do Recife quando ele era jovem, e falou que histórias assim eram comuns por lá. Curioso também que o elemento de horror tenha como alvo justamente os mesmo grupos que tais narrativas também tem – o que enfim se torna um momento descontraído e de humor em meio a uma tensão com poucos respiros desde o início do filme. Por outro lado, a sequência fica um pouco deslocada em um filme que, salvo algumas interações muito pontuais, não tem o tom despojado de, por exemplo, Bacurau (2019).

O Agente Secreto une diversos elementos que compõem a obra do diretor e, mesmo sem inovar no conteúdo em si, complementa e avança discussões pontuadas anteriormente com uma narrativa diferente do que já foi visto e com um final arrebatador. Vale mencionar também a estupenda atuação de Wagner Moura com um elenco de suporte primoroso, destaque especial para Tânia Maria como a queridíssima Dona Sebastiana.