Com o final da segunda temporada da mais recente adaptação do famoso livro de Anne Rice, quis revisitar este longa que está prestes a completar 30 anos e, até então, era a única adaptação do romance de 1976, para relembrar e comparar as duas obras audiovisuais. Dirigido por Neil Jordan, recém saído do bem sucedido thriller Traídos pelo Desejo (1992) — também com o subtexto queer que seria explorado no filme seguinte — e unindo dois dos maiores jovens galãs da época: Tom Cruise e Brad Pitt, o filme foi aclamado por público e crítica e tornou-se um marco para o cinema de terror.
Como sugere o título, a entrevista ocorre com o vampiro Louis de Pointe du Lac, que conta tristemente a história de sua longa vida para o jornalista Daniel Molloy — a partir do dia em que foi transformado pelo enigmático e sedutor Lestat de Lioncourt, em sua fazenda na Louisiana do fim do século XVIII, até o momento em que ele fica livre de seu criador. Desde o início, Louis renega o “presente” da vida eterna, escolhe não se alimentar e, tal qual o ator, Brad Pitt, passa todo o tempo deprimido. Pitt conta que pensou em largar a produção várias vezes (por conta das gravações noturnas, frio e incômodo com os dentes), mas não o fez pois a multa de rescisão era muito alta.
Para animar Louis, Lestat transforma uma garotinha adoecida e órfã por causa da peste em vampira, e ela é criada como filha pelos dois. No entanto, Claudia irá envelhecer e permanecer criança, o que Kirsten Dunst, na época com 11 anos, constrói de forma brilhante durante a trama — aliás, ela e Tom Cruise parecem estar se divertindo muito como vampiros maníacos sedentos por sangue, o completo oposto de Brad Pitt. Na verdade, Christian Slater, como o repórter curioso; e Antonio Banderas, como o vampiro Armand, também estão muito à vontade em seus papéis, mas o espanhol parece que é o único que realmente entendeu o subtexto homoerótico do filme (será que foi por já ter trabalhado com Pedro Almodóvar?)
O homoerotismo, aliás, está presente, como na obra original, mas não é a ênfase do filme. Neil Jordan escolhe uma abordagem de terror gótico remanescente dos romances vampirescos do século XIX, em que os vampiros são demônios amaldiçoados, criaturas da noite que se alimentam de sangue quente e queimam com fogo e sol — o que não deixa de ser uma alegoria para a experiência queer em uma época que, além de estigmatizados pela sexualidade, também eram o centro da epidemia de Aids e por isso muitas vezes viviam marginalizados e escondidos pela noite. Sobre o aspecto gótico, o diretor cita o, então recente, Drácula de Bram Stoker, (1992) de Francis Ford Coppola, como inspiração e de fato existem paralelos claros, especialmente no tom escolhido para o longa: um drama gótico soturno, com sangue e fogo sendo o ponto de iluminação e saturação de cor do filme, que prefere os tons frios e escuridão na maior parte do tempo, para criar contraste com o vermelho e a luz.
Para uma produção tão conturbada, que passou por diversos percalços, de dentes incômodos, maquiagem pesada e demorada, até gravações sempre noturnas e desaprovação da autora dos livros (que depois acabou gostando da obra final), é notável como esta adaptação de Entrevista com o Vampiro permanece no imaginário como uma obra seminal sobre vampiros no cinema, junto com as de Drácula (das décadas de 30 e 90).
O filme consegue trazer com fidelidade a estranheza sedutora dos monstros de Anne Rice, sempre enfatizando o horror daquela existência amaldiçoada. O que é bem diferente da nova adaptação do livro Entrevista com o Vampiro, que mencionei no início, que por sua vez tem uma abordagem mais melodramática e romântica da narrativa, e menor de terro. Porém, pôde tocar em pontos sensíveis que nos anos 1990 eram ainda tabu, como questões raciais e homossexualidade. Mas isso é assunto para outro momento.