No fim dos anos 1970, apresentador Jack Delroy tenta recuperar sua audiência após a trágica morte de sua esposa, e encontra uma oportunidade no Halloween de 1977, quando recebe um suposto médium, um cético, uma parapsicóloga e uma sobrevivente de um culto satânico.
Muito se fala sobre a ruptura na história do cinema causada pela difusão dos aparelhos de televisão nos anos 1950. Foi um dos períodos nos quais essa arte teve que se reinventar em diversos sentidos, seja pelo conforto de assistir em casa, pela popularização dos equipamentos de gravação televisiva a partir dos anos 1970 ou pela circulação do controle remoto nos anos 1980. Contudo, um aspecto muito curioso dessa nova cultura de entretenimento merece mais atenção: os programas ao vivo.
Transmitir os acontecimentos em tempo real e sem a possibilidade de cortes posteriores significava dar ao audiovisual um realismo nunca visto antes. Opõe-se fundamentalmente ao controle do diretor sobre o cinema, uma vez que dá oportunidade aos fatos de ocorrerem de maneira completamente inesperada, o que leva à perda do controle do programa em diversas ocasiões. Como um exemplo real, há o suicídio televisionado da apresentadora Christine Chubbuck em 1974, fato que inspirou o filme Christine (2016), de Antonio Campos.
O grande mérito de Entrevista com o Demônio é emular esse sentimento de imprevisibilidade e de descontrole da televisão, tudo isso sob uma estética que varia entre a reimaginação de um programa da época (feita principalmente pela fotografia) e uma artificialidade das cenas de terror, algo também muito próprio do período. Essa dialética entre o terror frontal e o pseudo documentário fica ainda mais rica quando o cético coloca em dúvida as cenas sobrenaturais, principalmente em um trecho específico no qual ele apresenta um truque de ilusionismo.
Ainda no tema da imprevisibilidade da TV ao vivo, destaco como as atuações conseguem trazer uma flexibilidade imensa ao filme. Como o longa dá pouco background aos personagens, e ele se resume a uma narração com escassas imagens, acaba que só os conhecemos com o decorrer da trama. É aí que os atores brilham: o protagonista conta com uma interpretação espetacular de David Dastmalchian, o qual transita entre o clássico apresentador americano e um personagem dúbio e desesperado nos bastidores. Dentre os coadjuvantes, o destaque óbvio é Lilly, papel da jovem Ingrid Torelli, que causa um constante desconforto, e dá o tom de terror até nos trechos mais calmos.
Contudo, essa inventiva dinâmica ora controlada para a televisão, ora caótica nos bastidores, acaba perdendo um pouco de força quando o filme decide resolver seus conflitos. Em vez de desconstruir aquela decupagem mais presa à proposta, contida nos limites da câmera de TV, a direção opta por trazer ela a um aspecto mais próximo do cinema contemporâneo, inclusive utilizando o widescreen. Isso destoa completamente do construído antes, principalmente em decorrência de os acontecimentos escalarem em um caos absoluto e uma artificialidade setentista, para se resolverem rapidamente em uma ideia que não faz jus à tragédia que o enredo faz, mas a uma estética pouco inspirada e até próxima da onda A24 de terror.
Apesar desse final meio anticlimático, Entrevista com o Demônio é um bom filme de terror, e um dos mais criativos que saíram recentemente, ao não só simular um antigo programa de TV, como brincar com suas características essenciais de modo a construir um longa cativante e imprevisível.