O enviado do Camboja para consideração da Academia é um filme baseado em acontecimentos reais relatados pela jornalista estadunidense Elizabeth Becker no livro de 1986: When the War Was Over: Cambodia and the Khmer Rouge Revolution (em tradução livre: Quando a Guerra Acabou: Camboja e a Revolução do Khmer Vermelho). Ela já havia estado no país como correspondente durante a Guerra do Vietnã e, em 1978, juntamente com o jornalista Richard Dudman e acadêmico Malcolm Caldwell, foram os únicos ocidentais permitidos no país depois da ascensão do Khmer Vermelho, em 1975. A intenção dos três era entrevistar o ditador marxista Pol Pot, mas também reportar o que estava ocorrendo no país pós-revolução.
O filme começa com os três chegando ao país e sendo escoltados para um alojamento provisório e constantemente monitorados por um grupo de guardas, no qual poucos falam francês. Vale ressaltar também que os personagens são um pouco diferentes das pessoas reais, com a equivalente à Elizabeth chamada Lise Delbo, ao Richard de Paul nomeado de Thomas e ao Malcolm de Alain Cariou — este no filme sendo ex-colega do governante. Eles logo visitam um hangar onde estão sendo feitas pinturas de Pol Pot, além do planejamento de estátuas e construções exaltando o líder. Logo nessas primeiras cenas, o clima de incerteza, opressão e insegurança sobre o que vai se desenrolar já é estabelecido. A câmera passeia pelo rosto dos trabalhadores e dos jornalistas contrastando com as pinturas gigantes e as armas dos soldados.
A montagem do longa é bastante inventiva ao misturar as cenas dos jornalistas entrevistando pessoas e andando pelo lugar com imagens de arquivo do que eles realmente observaram na época, e também maquetes com bonequinhos de madeira representando os personagens, além dos sons ambientes e de diálogos. Essa encenação é usada principalmente em cenas de deslocamento pelas florestas e em momentos em que eles se deparam com imagens mais pesadas, como a invasão de uma aldeia e pessoas morrendo de fome. É um formato bem criativo para poupar recursos e dar mais ritmo para a narrativa do longa, que envolve muita espera.
O filme também não tem medo de criticar ferozmente o regime do Camboja (na época chamado Kampuchea) durante este período. De acordo com o longa, o ditador impôs um massacre a intelectuais e manifestações contrárias, as cidades foram abandonadas e todos os que sobraram foram obrigados a trabalhar no campo, no entanto a fome dizimou mais outros tantos. Tudo obviamente bem escondido pelo exército sob o comando de Pol Pot. Eu admito que não fazia ideia de que um dos maiores genocídios do mundo tinha ocorrido neste país.
Embora alguns acontecimentos pareçam ter sido mudados da vida real – talvez para intensificar o drama – o que ocorre com o personagem Alain é o mesmo que acontece com Malcolm Caldwell, que era admirador e defensor do Khmer Vermelho. Assim como a subsequente invasão do país pelo Vietnã, recém vencedor de outra guerra, que colocou fim à ditadura de Pol Pot. O longa, no entanto, tem o viés anticomunista que se espera de uma obra ocidental, porém aqui acho até justificável, visto de quem se trata. É um filme muito interessante não só por dar luz a uma história pouco conhecida por aqui, mas também pelo formato bem fora do comum quando une maquetes e vídeos reais à encenação mais clássica.