Vou ser sincero: quando eu entrei na cabine de imprensa de Emilia Pérez na abertura do Festival do Rio 2024, eu não sabia praticamente nada sobre o filme além do título e de seu elenco central. O fato de ser um musical me pegou de surpresa logo de cara e eu jamais poderia esperar que eu assistiria a um número musical sobre cirurgias plásticas e transição de gênero, com dançarinos enfaixados e em cadeiras de rodas em uma clínica de procedimentos estéticos.

Eu começo este texto com essa informação porque é fato que o novo filme do parisiense Jacques Audiard me surpreendeu positivamente em inúmeros momentos justamente por se assumir como um musical bem distinto daqueles mais badalados de Hollywood, tanto do passado quanto da contemporaneidade. Quando Rita (Zoe Saldaña), uma advogada mexicana, é sequestrada por um perigoso cartel, se surpreende ao saber que o temido líder do grupo (Karla Sofía Gascón) é, na verdade, uma mulher que busca uma forma de reafirmar seu gênero por meio de procedimentos cirúrgicos, aproveitando essa chance para abandonar também seu posto criminoso e viver uma vida nova como a benfeitora Emilia Pérez.

Audiard compõe aqui uma jornada de redenção a partir de elementos inusitados e de uma amizade improvável entre Rita e Emilia, usando o musical como meio de desabafo dos sentimentos mais reprimidos do trio feminino protagonista. É até interessante perceber como cada uma parece ter uma espécie de temática própria. No caso de Rita, seu senso de justiça e a satisfação por fazer o certo; no caso de Emilia, a oportunidade de assumir finalmente sua própria identidade e a tentativa de se reconectar com os filhos; e, no caso da ex-esposa de Emilia, Jessi (Selena Gomez), o senso de libertação por ter “se livrado” de um marido que não amava.

E eu gosto da flexibilidade do diretor no planejamento de cada número musical. Quando mais íntimo, ele segura a extravagância e cria momentos mais minimalistas, em que o canto sai como um singelo diálogo ritmado. Quando mais expansivo, Audiard assume seu lado Baz Luhrmann e cria momentos verdadeiramente empolgantes. El Mal, música performada por Saldaña durante um evento beneficente, se torna uma espécie de híbrido de rap com rock ‘n’ roll, numa espécie de representação teatral e musical da revolta de Rita devido às circunstâncias dúbias da cerimônia, a título de exemplo.

O problema é que o cineasta não tem o mesmo controle sobre o filme quando se afasta do musical por mais tempo. E nesse sentido, a reta final e seu clímax rocambolesco acabam soando como um descarrilamento de trem. Não que comprometa todo o filme – a última cena é muito boa como conclusão de toda a ideia da jornada da personagem-título, mas acredito que há uma certa afobação para criar um conflito mais maximalista para a trama. E, claro, mesmo mantendo o tom cafona que o longa assume tão bem, acredito que um pouco de paciência seria melhor; afinal, por minha parte, filmes longos e bons jamais serão um problema.

Dito isso, Emilia Pérez é uma grata surpresa de 2024, que o Brasil infelizmente só poderá experimentar nas telonas no início de fevereiro de 2025 – num esforço, a meu ver, equivocado ao apostar nas indicações do Oscar como motor para levar o povo aos cinemas. Ainda assim, acho que aquela paciência que eu citei logo acima pode ser interessante para você espectador, se quiser ver um bom musical na tela grande. Afinal, depois do vexame de Coringa: Delírio a Dois (Phillips, 2024), estamos precisando de algo assim!