Antes de mais nada, preciso falar de musicais. Há um medo recente de assumir um filme como musical clássico. Como exemplo tem a divulgação de filmes recentes como Meninas Malvadas (Perez Jr, Jayne, 2024), que não tinha músicas no trailer mesmo sendo adaptação do espetáculo teatral e não do filme homônimo. Wonka (King, 2023) é outro que me recordo ter sido pouco anunciado como musical, mesmo sendo composto de belas canções e números de dança competentes. Quando Coringa: Delírio a Dois foi anunciado como musical, e com a participação da Lady Gaga, fiquei bem animada pela coragem não só de expor logo de início a intenção, mas, principalmente, de irritar os fãs de quadrinhos que não gostam do formato.

No entanto, conforme a data de estreia foi se aproximando, declarações estilo “não é bem assim” começaram a sair na imprensa. Foi dito que o filme teria músicas, mas não era exatamente um musical — sendo apenas um “delírio” dos personagens que não poderia ser expressado por palavras (basicamente descrevendo a essência do que é um musical). Portanto, parece que, em algum momento ao longo da produção, alguém ficou com receio de realmente se comprometer com o formato e ele foi — mais ou menos — abandonado. O resultado apresentado em Coringa: Delírio a Dois, no fim das contas, penso que não agrada nem aos fãs de musical e pessoas que buscavam novos formatos no cinema dos quadrinhos, e nem aos fãs mais conservadores do personagem e universo DC.

Em um musical, a música é uma maneira de expressar emoções intensas, que não podem ser apenas ditas, desenvolver os personagens e o enredo de alguma forma, sendo impossível a remoção de uma música sem prejudicar a narrativa — se isso ocorrer, o roteiro deve ser refeito. Quem disse isso foi Howard Ashman, compositor e produtor responsável apenas por iniciar a chamada Renascença Disney — filmes como A Pequena Sereia (Musker, Clements, 1989) e A Bela e a Fera (Trousdale, Wise, 1991), ambos musicais clássicos. Além disso há também a necessidade de suspensão de descrença sobre pessoas começarem a dançar e cantar do nada, que é mais natural no teatro e na animação.

O filme, no entanto, pouco necessita dessa suspensão de descrença, pois as músicas são mesmo devaneios ou sonhos; elas expressam sentimentos profundos dos personagens, mas pouco (ou nada) avançam a história. De modo geral, são compostas de declarações de amor e conselhos, mas ficam mais na promessa do que na encenação. A sensação de repetição é nítida, visto que, como são os tais delírios apenas do casal, Coringa e Arlequina, e com os mesmos temas cantados somente por eles, parece que a narrativa gira em um círculo infinito.

Ainda assim pode ser considerado um musical? Acredito que sim. Não só pela quantidade de canções, mas como são cantadas pelos próprios personagens, por vezes em cenários imaginados, e são integradas — apesar da maneira porca — à narrativa. As músicas escolhidas são clássicas norte-americanas, gravadas previamente por nomes como Stevie Wonder, Judy Garland e Frank Sinatra. Isso é característica de um musical Jukebox, quando são usadas músicas já lançadas antes — o que não impede o avanço da narrativa por meio do que é dito, quando bem encaixado, como por exemplo em Moulin Rouge (Luhrmann, 2001) ou Rocketman (Fletcher, 2019). Aliás, muitos desses covers estão no novo álbum da Lady Gaga, Harlequin, melhores interpretados e produzidos.

O problema do filme é que, talvez pelo receio de ser um musical clássico, os números fantasiosos são pobres de dança e espetáculo, e os outros são apenas murmúrios das canções icônicas escolhidas. Dessa forma, resta apenas a esperança de que, em algum momento, o longa vai ter uma reviravolta ou apresentar algo interessante, em meio ao tédio da espera. Isso acaba respingando no desenvolvimento dos personagens também, que não progride para além de “Coringa gosta de Arlequina” e vice-versa — esses, que pouco mantém da essência dos originais para além da maquiagem e de uma suposta loucura, que se manifesta em cenas pontuais (como a do incêndio) sem consequências.

Não bastasse tudo o que já foi dito, o longa ainda falha em criar tensão sobre o que o Coringa pode fazer (salvo uma cena no tribunal) e o personagem parece ter regredido para o Arthur Fleck que vemos na primeira parte do primeiro filme. A atuação do Joaquin Phoenix, que lhe rendeu um Oscar anteriormente, aqui parece enfadonha, com repetições de gestos e feições, em contextos que não fazem sentido, como por exemplo fumar arqueando as costas para trás e a risada deslocada. A Arlequina de Lady Gaga não lembra a personagem enérgica original da animação (e nem suas outras versões), o que não é um demérito em si, entretanto, remove a principal característica dela, e acaba sendo apenas uma representação deprimida da personagem.

Gosto do primeiro filme, apesar de o achar bem derivado, principalmente, de O Rei da Comédia (1982), de Martin Scorsese. Ele tem um tema antissistema, mesmo que raso; sobre como a pessoa pode ser corrompida pelo meio e se tornar violenta. Na continuação o tema prossegue apenas em teoria. A violência sofrida por Arthur é mais direta e inconsequente, com o questionamento posicionado em um discurso de proteção de pessoas com doenças mentais, que fica somente nas menções iniciais. Esvazia mais o que já era vazio e não adiciona nada, seja nos temas ou mesmo na encenação, para preencher.

Coringa: Delírio a Dois me deixou triste. Não pelo conteúdo, mas pelo potencial desperdiçado de ser algo disruptivo e divertido. O que vi é meramente um filme medíocre, tedioso e sem graça. Não chega nem a ser veementemente terrível. Talvez, numa próxima vez, o diretor Todd Phillips possa escolher novamente uma inspiração mais direta, que aqui, pelo conteúdo, poderia, por exemplo, ser Chicago (Marshall, 2002).