Otávio (Gianfrancesco Guarnieri) é um líder sindical idealista que tenta organizar os trabalhadores de uma fábrica para resistir às práticas exploratórias da empresa. Seu filho, Tião (Carlos Alberto Riccelli), um dos funcionários, porém, não quer correr o risco de perder o emprego por causa da greve, em virtude de estar esperando um filho com sua namorada Maria (Bete Mendes). Esse choque de perspectivas coloca pai e filho em desacordo, o qual a mãe de Tião, Romana (Fernanda Montenegro), tenta constantemente mediar.

O cinema político visto sob a ótica dos núcleos heterogêneos que compõem a coletividade. A paixão tão forte no início — representada em cenas como do anúncio da gravidez e no íntimo trecho em que Maria, nua, conversa com seu futuro marido Tião —, a esperança do pai de Maria em conseguir um emprego e parar de beber, os fortes laços familiares de Tião; tudo é substituído por um conflito que transcende qualquer aspecto meramente pessoal.

Afinal, o que é o ser humano senão um ser social? Um ser cuja consciência é construída pelo meio, cuja identidade não é somente sua. Por isso, em Eles Não Usam Black-Tie, há uma união entre o trabalhador e a identidade individual, entre a greve e o conflito familiar e entre o particular e o coletivo. Mais do que uma guerra maniqueísta entre o pai grevista e o filho pelego, vemos os aspectos das complexidades que levam essas pessoas a tais decisões.

Para mim, a grande ideia da obra é focalizar como, ao olhar a situação por meio da perspectiva pessoal dos envolvidos, é visível que há mais do que heróis e traidores dentro da classe trabalhadora. Evidentemente (e o diretor parece concordar com isso) que Tião representa o que há de pior em um trabalhador, mas a escolha de o colocar em uma situação desesperadora de uma gravidez indesejada dá uma outra dimensão àquilo que ele parece acreditar.

Ao demonstrar que tanto Tião quanto Otávio foram irresponsáveis em suas escolhas, o diretor mostra haver, sim, um maniqueísmo em Eles Não Usam Black-Tie, mas não na figura do pelego — uma vez que este errou enquanto tentava garantir condições de vida dignas, as quais ele não tem perspectiva de acesso senão sendo submisso ao empregador. Para além das questões políticas e nucleares, há de se examinar também esses fatores pessoais, psicológicos e culturais por trás das escolhas. Como disse, a nossa consciência não é somente nossa, tampouco nossa aparente liberdade.

Desse modo, o diretor Leon Hirszman explora os conflitos causados por um inimigo invisível e implacável. O fato de ambos os homens terem bons motivos demonstra um certo fatalismo, em que não há saída. Ou o trabalhador se submete às condições degradantes e cava sua própria cova, ou se revolta e corre o risco de deixar sua família desamparada, como fez Otávio. E o sofrimento advindo dessas “escolhas” recai não só sobre eles, mas também sobre Maria e, principalmente, sobre Romana.

Por fim, pelo menos temos um alento. Enquanto os créditos descem, cantos anunciando a continuidade da greve. Ainda que essa esperança não tenha sido transmitida ao nosso mundo real, demonstra como há muito mais em uma história como essa do que tragédia e decadência.