Eu vi uma entrevista com o diretor Seth Worley sobre os efeitos especiais de Desenhos no canal estadunidense Corridor Crew e fiquei bem interessada em assistir o filme por causa disso. Ele conta como surgiu a ideia de criar os monstros baseados nos desenhos de uma criança, as especificidades dos traços e materiais, bem como a união de elementos como glitter e googly eyes no design. O que eu não sabia era que é mais um filme da Angel Studios, a produtora mórmom de Som da Liberdade (Monteverde, 2023) e a série The Chosen (Jenkins, 2017-), e não vou negar que isso me desanimou bastante.
No entanto, Desenhos é uma aventura de terror infanto-juvenil bem divertida e de fato os efeitos especiais são boa parte da graça do longa. Amber (Bianca Belle) é a responsável pelos seres que vão ganhar vida; é desenhando monstros aterrorizantes e violentos que ela lida com a perda da mãe. Enquanto isso, o pai (Tony Hale) e o irmão, Jack, (Kue Lawrence) estão em negação e não compreendem de onde vem a raiva que a menina coloca no papel e que acaba criando problemas na escola. No desenrolar desse conflito os papéis rabiscados caem em um lago mágico e, assim, os bichos passam a aterrorizar a cidade.
A ideia de conversar sobre o luto a partir de seres sobrenaturais não é nova, mas é bastante criativo ver isso a partir de ilustrações feitas por uma criança. Alguns bichos são tão fofos quanto ameaçadores — como Dave, que é feito de giz azul e glitter — enquanto outros são realmente aterrorizantes — como as Eyeders, aranhas vermelhas cujo corpo é um olho. Aliás, é possível que crianças menores fiquem com medo visto que há partes que o filme assume uma estética de terror mesmo. Apesar do orçamento limitado, a produção criou boas soluções para mesclar o VFX com o mundo real, seja pela interação com os atores e ou pelos rastros de pó de giz deixados pelo caminho; além de um design que destaca os traços e materiais com os quais eles foram desenhando, criando um visual muito diferente e divertido.
O elenco infantil é bem entrosado e convence, e, além deles, o destaque fica com a ótima D’Arcy Carden — que talvez alguns conheçam como a Janet de The Good Place (2016-2020) —, que interpreta uma corretora de imóveis que está tentando vender a casa da família, mas sempre é interrompida pelo pai das crianças.
A questão que me preocupava sobre a distribuidora não está na narrativa do filme, que no fim das contas é bem tradicional, mas não trata de temas religiosos ou de negacionismo, como no filme mais famoso já mencionado. Porém, nos créditos finais tem uma propaganda bizarra de um aplicativo da empresa para as crianças desenharem bichinhos e vê-los criarem vida (acredito que através de inteligência artificial usando modelos em 3D). Esses monstrinhos, que não são os do filme, ilustram os créditos.
A Angel Studios também tem um streaming próprio e um clube de membros que ajuda a escolher quais serão as próximas produções. Por isso o estranhamento que uma historinha tão inocente e fofinha faça parte de um catálogo de filmes religiosos de uma empresa envolvida em diversas polêmicas. Mas, bem, as grandes produtoras também estão aí lançando filmes bobinhos ou disruptivos de vez em quando.