Enfim, chegamos ao clímax — ou melhor, ao início do clímax, visto que esse é o primeiro de uma trilogia — de Demon Slayer, ou Kimetsu no Yaiba, se preferir. Foram quatro temporadas e um filme até aqui, em que acompanhamos a jornada de Tanjiro Kamado, o qual tem sua família massacrada por um demônio e sua irmã Nezuko transformada em um, circunstância que o leva a se juntar à Organização dos Aniquiladores de Demônios a fim de matar o líder e mais poderoso deles, Muzan Kibutsuji. Assim, nosso protagonista conhece outros personagens: os seus amigos Zenitsu e Inosuke; e os Hashira (ou Pilares), membros da elite da Organização.
Após passarmos pela introdução desse universo, pelo Trem Infinito, pelo Distrito do Entretenimento, pelo Vilarejo dos Ferreiros e pelo Treinamento Hashira, Demon Slayer: Castelo Infinito começa exatamente onde termina a série. Depois do sacrifício heroico de Kagaya Ubuyashiki, o mestre da Organização, a fim de armar uma emboscada para Muzan, os exterminadores são teletransportados para o Castelo Infinito, a fortaleza que abriga os demônios. Separados, Tanjiro, Inosuke, Zenitsu, os Hashira e membros de patente mais baixa precisam agora enfrentar não só uma diversidade de inimigos como os demônios conhecidos como Lua Superior, os mais poderosos existentes: Kokushibo, Doma, Akaza, Nakime e Kaigaku.
Apesar de ter 2 horas e 35 minutos, o filme cobre uma parte relativamente singela da conclusão da trama. O foco maior recai sobre as batalhas de Shinobu (a Hashira do Inseto) contra Doma (Lua Superior Dois), Zenitsu contra Kaigaku (Lua Superior Seis) e principalmente de Tanjiro e Tomioka (Hashira da Água) contra Akaza (Lua Superior Três). As lutas são deslumbrantes e elevam ainda mais a já alta qualidade técnica vista na série, sendo o Castelo o cenário perfeito para tanto, uma vez que gera inúmeras possibilidades de exploração do ambiente sem perder a penumbra e a claustrofobia que Muzan busca impor a seus inimigos.
Aliado às cenas de ação, temos muitos dos já tradicionais trechos que exploram o passado dos personagens. Sempre achei isso um diferencial muito interessante de Demon Slayer, por humanizar não só os heróis como os vilões. Grande parte dos demônios não ocupam posições maniqueístas tampouco têm motivações propriamente maldosas, mas são apenas vítimas de suas circunstâncias e atingidos por um ódio incessante pela humanidade, diversas vezes justificável. Em Castelo Infinito, esse aprofundamento chega a seu ápice com o passado de Akaza, provavelmente a história mais trágica até então. Conjuntamente, há a adição de informações que detalham o passado de personagens como Shinobu e Zenitsu, tornando ainda mais rico o universo anteriormente desenvolvido.
O único fator que me causou um leve incômodo foi em como as batalhas e os momentos dramáticos interagem. Diferente da batalha contra Daki e Gyutaro na segunda temporada — um dos momentos mais marcantes do anime —, em que vemos esse momento de humanização dos vilões se dar sem prejuízo das lutas, em Castelo Infinito é frequente a quebra da fluidez da ação para explorar esse lado mais sensível da narrativa. Tenho consciência de que certas quebras são características próprias não só de Demon Slayer como de animes shonen num geral, em especial nos momentos mais épicos; contudo, a frequência com que isso acontece no presente filme torna o ritmo um pouco enfadonho. Não é um problema que acaba com a obra — afinal sequer estou criticando o conteúdo dos trechos dramáticos, que são realmente tocantes —, porém uma melhor organização das linhas narrativas poderia intensificar o impacto tanto da ação quanto dos momentos mais calmos.
Mesmo assim, Demon Slayer: Castelo Infinito supre muito bem as expectativas de quem aguarda por esse (início de) final. Entre reviravoltas chocantes e uma ampliação dos já conhecidos e fascinantes trechos dramáticos e de ação, é incrível ver Tanjiro, Zenitsu, Inosuke e os Hashira em seu ápice de poder na tela do cinema. No fim, é impossível não ficar ansioso com o que mais esse universo pode nos proporcionar e com mais momentos de outros grandes personagens que não tiveram tanto tempo de tela nesse primeiro capítulo.