É difícil falar de Coyote vs Acme sem mencionar toda a polêmica que atrasou em três anos o lançamento deste filme. A ideia de se fazer um filme sobre o Wile E. Coyote processando a empresa fictícia Acme (pelos produtos defeituosos que o impedem de capturar o Papa-Léguas) não é nova: em 1982 foi tema de uma série cômica na revista National Lampoon chamada Cliff-hanger Justice; em 1990 foi tema do artigo paródia de Ian Frazier para a revista The New Yorker; e em 1991 foi tema de um episódio da primeira temporada do desenho Tiny Toons (1990-1992), chamado K-Acme TV.
Ainda nos anos 1990, os direitos do artigo de Frazier foram adquiridos no intuito de se fazer uma adaptação para o cinema dessa história, com o mesmo título do texto: Coyote Vs Acme. Contudo, a Warner não permitiu que o filme fosse produzido e o direito de uso caiu em 2006. É então que, em 2015, James Gunn consegue o sinal verde para produzir um longa baseado na ideia de Frazier, que ainda demoraria mais sete anos para ser filmado, sob a direção de Dave Green.
Com o longa pronto para ser lançado, a Warner anunciou seu cancelamento — junto com Batgirl e a sequência de Scooby! O Filme (Cervone, 2020) — em novembro de 2023. A partir daí houveram protestos tanto do público quanto de pessoas da própria indústria e o estúdio permitiu que os produtores pudessem vender os direitos de distribuição para outras empresas. Apenas em março de 2025, a Ketchup Entertainment, a mesma que já havia comprado do direitos do ótimo Looney Tunes – O Filme: O Dia Que A Terra Explodiu (Browngardt, 2024), adquiriu também os de Coyote Vs Acme.
Dessa forma, o filme finalmente chega aos cinemas e é de se questionar o porquê do estúdio desdenhar tanto dos Looney Tunes. A animação de 2024, por exemplo, foi o primeiro longa protagonizado somente pelos personagens animados e quase ficou escondida nos cinemas, com uma divulgação minúscula. Outro exemplo é Space Jam, de 1996, que talvez seja a incursão cinematográfica mais importante dos Looney Tunes, mas que ao mesmo tempo é notório por dar protagonismo ao Michael Jordan em detrimento dos personagens.
Coyote vs Acme chega numa marola recente de live-actions misturados com animações voltadas para um público um pouco mais velho, que usam bastante do humor auto-referencial e tratam os personagens como parte integrante do mesmo mundo dos humanos. Dois filmes que vêm à mente são Detetive Pikachu (Letterman, 2019) e Tico e Teco: Defensores da Lei (Schaffer, 2022), ambos sucessos de público — algo que reforça o questionamento sobre a decisão de cancelar o filme dos Looney Tunes — que seguem temáticas semelhantes, como a briga com grandes corporações e as amizades improváveis.
No longa, a empresa Acme é praticamente um monopólio tecnológico no mundo humano e usa os desenhos, que são imortais, para testar seus produtos. Porém, Wile E. Coyote está cansado de ser vítima constante dos equipamentos defeituosos que ele adquiriu para pegar o Papa-Léguas e decide entrar na justiça contra a empresa. Ele busca ajuda, então, no escritório Avery, Jones and Maltese — homenagem aos criadores do personagem, Chuck Jones e Michael Maltese, e ao icônico diretor da Era de Ouro do estúdio, Tex Avery — que por sua vez tem vários anúncios de casos em que conseguiram a compensação por danos causados por equipamentos Acme. A partir daí o filme é uma mistura de drama de tribunal com espionagem e, é claro, a comédia escrachada dos Looney Tunes.
O filme consegue unir tão bem o desenho com o mundo real, seja nas técnicas visuais, ou seja em mesclar a existência deles de uma forma plausível, de uma maneira que só se viu em Uma Cilada Para Roger Rabbit (Zemeckis, 1988). Além disso, honra a dinâmica dos Looney Tunes, como, por exemplo, em deixar o Coyote se comunicando apenas com placas — algo que cria situações muito engraçadas — e o Papa-Léguas também só faz o som característico. Há ainda várias outras referências a objetos e situações clássicas das animações, como a tinta preta para criar um túnel ou o piano caindo de um prédio, e todas são tratadas como algo natural naquele universo.
A trama cíclica desse tipo de animação também é levada em conta, quando na verdade o objetivo principal do Coyote não é vencer o processo, mas sim pegar o Papa-Léguas. É o tema de Sísifo com a pedra, também ressaltado em cartazes do filme, em que o herói tem consciência da repetição eterna de seu esforço e nisso encontra felicidade e autonomia. Os dois personagens vivem nesta simbiose da própria existência, ambos sendo necessários na manutenção do ciclo sem fim.
Outro aspecto interessante é que, com toda a controvérsia envolvendo o lançamento do longa, a trama de tribunal torna-se praticamente uma metalinguagem sobre os criadores versus o estúdio. A exposição da Acme como a empresa gananciosa, visando o lucro acima do bem-estar de seus clientes, parece muito com as críticas recebidas pela própria Warner quando esclareceu a motivação para o cancelamento desse e de outros filmes: abatimento de impostos. Inclusive o resultado do embate, meio Davi versus Golias, tem semelhanças com a vida real.
É provável que Coyote vs Acme seja mais lembrado pela polêmica do que pelo filme em si, mas é uma homenagem muito afetuosa aos originais dos Looney Tunes e a melhor junção entre animação e live-action desde Uma Cilada Para Roger Rabbit.