É o mesmo filme. Eu precisaria ver uma montagem com os dois longas passando ao mesmo tempo para notar diferenças. Para quem não acompanha, o primeiro live-action do diretor Dean DeBlois, Como Treinar o Seu Dragão, é um remake da animação de mesmo nome, lançada em 2010 – e primeiro remake de um filme da DreamWorks Animation também. A narrativa é idêntica ao predecessor e acredito que até falas e cenas tenham sido reproduzidas da mesma maneira. Portanto, talvez não seja surpreendente dizer que é um bom filme, visto que a animação é excelente.
A grande questão é: por quê? Por que refazer um filme exatamente da mesma maneira em um formato diferente? Os dois são do mesmo diretor, que na animação estava acompanhado de Chris Sanders, e ainda tem Gerard Butler repetindo no live-action o papel que dublou, de Stoico. Por um lado, faz sentido não mexer em time que está vencendo, visto que o original é um enorme sucesso do estúdio, por outro, o filme já existe. Dessa forma, a obviedade do desespero pelo lucro em detrimento da arte e a crise criativa de Hollywood fica mais evidente ainda.
A Disney, que já tem dezenas de remakes live-action de suas animações na conta, pelo menos cria a desculpa de que está “atualizando” suas histórias e temáticas para uma nova audiência, ou até criando novas origens para os personagens. Na maior parte das vezes é feito de maneira equivocada, mas é uma fórmula que deu muito certo com o público, o qual continua comparecendo ao cinema. Com isso, é lógico que outros estúdios iriam querer surfar nessa onda e aqui estamos.
Para quem desconhece a animação, Como Treinar o Seu Dragão é inspirado em uma série de livros infantis da autora britânica Cressida Cowell e segue a história de Soluço, um jovem viking muito criativo, mas também desajeitado, que deve se provar como guerreiro para seu pai, Stoico, o chefe da comunidade de Berk. Para trazer orgulho para o pai, o garoto constrói uma engenhoca a fim de abater um Fúria da Noite, o mais temido dos dragões. Ele consegue atingir o animal, mas não o mata, e acaba fazendo amizade com Banguela e entendendo mais sobre o comportamento dessas bestas aladas que assombram a ilha de Berk.
No live-action o protagonista é interpretado por Mason Thames, que é um ator muito carismático e – juntamente com Nico Parker, de Astrid, a melhor guerreira do vilarejo – é o que talvez justifique a existência do remake. Ambos elevam os personagens, que já eram muito bem construídos no original, com uma atuação descontraída e uma boa química.
Quanto aos dragões, Hollywood já é craque em criar esses animais de forma hiperrealista em CGI e os de Como Treinar o Seu Dragão seguem esse padrão de excelência. O Banguela está muito fofo, como esperado, e os outros têm características específicas bem distintas que são bem destacadas pelos efeitos especiais. Também ressalto o design de produção: os cenários e figurinos parecem usados realmente, locais vívidos, que ajudam muito na imersão dentro daquele universo.
No entanto, apesar disso tudo, a animação já existe e é ótima. Parece que é um formato considerado menor, somente infantil e bobo, de pouco valor artístico. Mesmo quando há uma (suposta) justificativa para adaptação, às vezes as mudanças na narrativa criam outros problemas e não corrigem os antigos e também não tem o mesmo apuro estético que as animações. É triste perceber que é uma tendência que ainda não está desgastada para o público e com isso perdemos de ter mais filmes infanto-juvenis e animações mais criativas – se continuar assim vão ficar sem ter o que adaptar. Dito isso, melhor que sejam mais do mesmo com um ótimo elenco e cuidado em recriar a mesma ambientação e espírito do original.