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Quando a diretora francesa Julia Ducournau lançou Raw em 2016, surgia uma herdeira promissora do Novo Extremismo, movimento controverso que tomou o cinema do país e, até mesmo, do continente europeu entre os anos 1990 e 2000. Era um filme que usava da violência gráfica para compor uma jornada de amadurecimento metaforicamente insana, com direito a um humor mórbido muito pertinente. Mesmo com seus simbolismos, Ducournau mostrava-se desprendida o suficiente de uma sisudez dramática tipicamente europeia. E por mais que, em sua estética, seu segundo longa Titane (2021) buscasse novamente esse desprendimento, não foi bem isso que a embananada execução alcançou, gerando um dos vencedores mais incompreensíveis da Palma de Ouro em Cannes.

Não deixa de ser irônico que Alpha, seu mais recente longa-metragem, herde tanto os pontos positivos de Raw quanto os negativos de seu antecessor. Afinal, temos uma obra dividida claramente em duas partes bem distintas, na qual a primeira foca no amadurecimento da jovem Alpha, vivida por Mélissa Boros. Essa, em um lapso de rebeldia adolescente, volta bêbada de uma festa com uma tatuagem no braço, em meio a uma epidemia de um vírus transmitido pelo sangue que está consumindo fatalmente os cidadãos franceses, atendidos por sua mãe, uma enfermeira. O que segue é um bom drama familiar a partir do pânico de contágio que — apesar da doença fictícia na retratação do filme — é referência claríssima à Aids.

Ducournau acerta na abordagem intimista ao desenvolver a relação entre mãe e filha durante a puberdade e torna tudo mais interessante e complexo quando o tio da menina, viciado em drogas e possivelmente infectado com o tal vírus, passa a morar com as duas, trazendo consigo momentos de pavorosa abstinência. Nesse contexto, vale destacar a inteligência da diretora em jamais prometer um filme de terror, como fazia com seus antecessores. Mesmo que apresente certas imagens gráficas, ela em momento algum usa dos signos do gênero para tentar manter uma ideia de assinatura. Porém, não deixa de ser esquisita a forma como aborda a tal doença que, nessa realidade, parece petrificar o organismo de seus hospedeiros com o tempo. Todos os momentos são tão claros nas referências à Aids que soa um tanto vazia essa tentativa de ficção especulativa, o que já ocorria em Titane.

Esse seria um problema até relevável se não fosse pela segunda parte do longa, que demonstra sua herança mais infeliz do filme de 2021. Em uma brincadeira temporal/cronológica, também aparentemente vazia (ou, no mínimo, mal trabalhada), Ducournau muda completamente o foco de sua dramatização, indo do amadurecimento de Alpha em um contexto difícil da sociedade francesa a uma história sobre como o luto pode consumir uma família a ponto de rachar suas estruturas. E é claro que essas duas temáticas poderiam, em mãos mais habilidosas, conectar-se sem problemas. Na verdade, poderia tornar toda a narrativa ainda mais poderosa dramaticamente, mas parece que a realizadora tem sérios problemas em tornar suas obras coesas, deixando escancaradas todas as suas cisões temáticas frágeis. Até o tom fica esquisito de uma hora para outra e a cena do hotel que separa essas duas partes do longa é, de longe, um dos momentos mais infelizes e apelativos da carreira de Ducournau; não no sentido gráfico como se esperaria, mas emocionalmente manipulativo mesmo.

Alpha, mesmo com seus óbvios méritos no coming of age inicial, acaba se desfazendo com essa virada repentina e parece duas histórias brigando para se afirmarem como a ideia central. No fim, apenas uma prevalece e a outra fica esquecida lá na metade do filme. E admito: a julgar pela cena final, isso poderia até ser encarado como uma abordagem simbólica proposital, mas a direção parece tão confusa com outras ideias ao longo do projeto que fica um pouco difícil dar esse benefício da dúvida para Ducournau. Uma pena.