Após os eventos de Aliens (1986), Newt (Carrie Henn), Hicks e Ripley (Sigourney Weaver) sofrem uma queda forçada em Fiorina 161, um planeta prisão que abriga uma instalação correcional. Newt e Hicks não sobrevivem, restando apenas Ripley e um Xenomorfo. No ambiente hostil da prisão, onde armas são proibidas e a ajuda está distante, os prisioneiros se aliam a Ripley para encontrar maneiras de sobreviver a qualquer custo.
O início de Alien 3 já é bem questionável. Durante a primeira meia hora, vê-se a destruição de uma das partes mais importantes da construção de Ripley: a sua relação com Newt, a criança salva e adotada com ela em Aliens. E não é só um rompimento qualquer, é uma redução da personagem de Newt a um cadáver nu (mesmo sendo apenas uma criança) em que é feita uma autópsia. De certa forma, esse desrespeito com a criança sintetiza a visão que Alien 3 tem em relação aos seus antecessores
Apesar de os dois filmes anteriores demonstrarem uma ausência de padrão (afinal, um é de terror e o outro é de ação), ambas são obras que pertencem a um mesmo imaginário, mesmo que brinquem com ele eventualmente — como ocorre com o próprio conceito do segundo filme, que substitui a grande ameaça do primeiro por uma pluralidade delas. Essa unidade, e tudo que fez os anteriores serem grandes obras, morre junto com Newt, e não se coloca nada no lugar.
Isso porque, em paralelo à desconstrução (esta que não é ruim a priori, frise-se, mas se torna assim pela execução), a narrativa define os elementos que irão compor o restante do filme por cerca de 40 minutos, os quais pouco adicionam: a ambientação atmosférica e claustrofóbica do primeiro, e a expansiva e minuciosa do segundo, é substituída por uma prisão fria e com poucos pontos de relevância; os personagens que foram construídos, principalmente em Aliens, são literalmente mortos, enquanto Ripley perde todas as suas características próprias. No meio disso, tensão dá lugar a uma frieza constante, tanto pela falta de desenvolvimento dos personagens, quanto pela bagunça pouco cativante proposta pelo enredo.
Essa bagunça, aliás, mostra como uma produção conturbada tem potencial de afetar o resultado final. Com a mistura de diversos roteiros e ideias, não há sequer uma definição da própria natureza principal do ponto de partida da narrativa. No local e nos personagens há uma mistura da prisão com um monastério (este que é fruto de um dos roteiros abandonados). Confunde-se a hostilidade dos presos, que os primeiros minutos não só implicam como esfregam na cara do espectador através de vários diálogos com uma unidade contra um inimigo em comum, de forma semelhante a Aliens; e em Ripley alterna-se livremente entre uma mulher afetada pelos muitos sofrimentos que viveu, e uma caricatura vazia de uma protagonista de filme de terror, sem que ambas coexistam.
Ademais, essa diversidade de ideias tanto no enredo quanto na encenação prejudica muito interação com os personagens. Não dá para sentir a vulnerabilidade da protagonista; assim como não existe tensão sexual quando a narrativa precisa; e não há como criar conexões com ninguém, nem mesmo com Ripley, que não tem nada de identidade. Isso não seria um problema se Alien 3 não tentasse a todo momento criar essa empatia e não passasse quase uma hora tentando a construir.
E esse fundamento mal construído acaba com todo o restante do longa. O terceiro ato, tomado por si só, não é tão insuportável quanto o restante, o problema é que ele está incluído nesse desastre todo. Mesmo com tediosas 2 horas e 24 minutos de duração (a versão que eu vi, ao menos, que é o Assembly Cut), não há tempo suficiente para desenvolver nenhuma ideia. Assim, quando a batalha final chega, ainda não há uma definição de qual é o substrato por meio do qual ela irá se desenvolver. A hostilidade dos prisioneiros, a qual foi exaustivamente tratada no início, é totalmente abandonada; a religião vira um mecanismo que só serve para uns discursinhos vazios; não há um personagem interessante; e nem se tem a dimensão da própria ameaça, visto que o filme estava mais interessado em usar do choque para filmar uma criança morta do que em relação aos ataques do monstro.
Alien 3 não só fere de morte tudo que a franquia construiu até então, como vai no sentido contrário de toda a evolução do cinema nas décadas anteriores. Para além de apenas chato, é asqueroso e é desrespeitoso com seus personagens, com sua trama e com o espectador de forma geral. Não só um anti-Alien, esse longa é um anti-cinema por completo, um desses que faz quem ama essa arte questionar se vale a pena continuar.