A Era de Prata das animações da Disney foi um período bastante marcante na história do estúdio após um hiato provocado pela Segunda Guerra Mundial. Era necessário retornar com histórias mais leves, capazes de entreter o público novamente. Nesse contexto, vários clássicos foram lançados: Cinderela (1950), Peter Pan (1953), A Dama e o Vagabundo (1955), A Bela Adormecida (1959), 101 Dálmatas (1961), entre outros. Porém, entre todas essas animações, Alice no País das Maravilhas se destaca por um aspecto singular: sua estranheza.

Embora parte desse mérito venha do material original escrito por Lewis Carroll e publicado em 1865, a animação realiza um excelente trabalho ao traduzir, visualmente, um ambiente marcado pelo absurdo e pelo exagero. Poucas vezes a Disney foi tão inventiva e criativa quanto aqui, construindo uma narrativa que dialoga com a psicodelia muito antes dela se tornar uma tendência no meio artístico. Diferentes criaturas, paisagens inusitadas, narrativas paralelas e uma combinação de sensações — entre o inofensivo, o estranho, o intimidador e o perigoso — compõem um universo caótico e imprevisível.

Essa imprevisibilidade é intensificada pela protagonista. Alice funciona como o guia do espectador nesse mundo, fazendo com que compartilhemos de seu olhar leigo. Ela é uma menina já cansada e entediada com o mundo real, onde tudo parece precisar de lógica e identidade para ser o que é. De repente, é transportada para um ambiente que subverte completamente essas regras, sendo imediatamente instigada a explorar e compreender aquele lugar fantástico.

Seu olhar é curioso, assim como o do espectador. O elemento lúdico e imaginativo desses espaços coloridos e bizarros desperta interesse justamente por não sabermos o que esperar. Tudo começa com a ideia de Alice seguir um coelho branco de paletó, carregando um relógio e aparentando estar atrasado por alguma razão misteriosa. Isso por si só já seria o suficiente para atiçar nossa atenção. “Para o quê ele está atrasado?” — essa é a pergunta que, inicialmente, impulsiona Alice a adentrar aquele universo. No entanto, ao longo do caminho, ela vai se deixando levar por elementos cada vez mais absurdos, se distraindo diversas vezes de seu objetivo inicial.

Porém, chega um ponto em que a instabilidade e a falta de sentido daquele mundo tornam-se demais para ela. Nenhuma de suas dúvidas é respondida e cada vez menos ela compreende aquele universo. E é justamente aí que reside sua grande beleza. Alice no País das Maravilhas é um deboche do mundo convencional, permitindo enxergar encanto no absurdo e no onírico — como se a ideia de que nada faz sentido tornasse a vida ainda melhor para ser vivida e apreciada.

Destaca-se também o equilíbrio com temas mais complexos. Com diversas inspirações satíricas da sociedade britânica, especialmente da aristocracia, os aspectos infantis funcionam como uma espécie de fachada para questionamentos ligados à identidade, à psicologia, aos paradoxos e à política. Isso demonstra como tanto o livro quanto a adaptação podem ser igualmente apreciados por crianças e adultos.