Mike Flanagan virou um queridinho dos aficionados por filmes e séries por conta da sequência de sucessos criados por ele em ambas as áreas do audiovisual. Com uma afinidade maior por um terror com uma carga dramática pronunciada, o diretor já adaptou para o cinema duas histórias do autor Stephen King em Doutor Sono (2019) e Jogo Perigoso (2017), sendo a A Vida de Chuck, então, a terceira colaboração dos dois. O conto foi originalmente publicado em uma compilação lançada em abril de 2020 chamada If It Bleeds.

É difícil falar qualquer coisa sobre a narrativa desse filme sem entregar o que faz dela mais interessante que é a estrutura, pois é o que diferencia esta história de outras com a mesma temática sobre o motivo da vida. Quando fui assistir só sabia como era o cartaz principal e algumas pessoas envolvidas; então mesmo a simples sinopse foi uma surpresa para mim e o que me manteve curiosa pelo desenrolar do longa. Posso adiantar que, mesmo assim, a expectativa que criei ao longo da trama de ter algo mais aprofundado no tema ou até mais fantasioso e lúdico foi um pouco decepcionante. Por isso, imagino que quem já sabe qual é o ponto central não vai ter nem essa curiosidade para se apegar. É um pouco triste quando a melhor parte de um filme é o ínicio.

A superficialidade dos personagens, principalmente de Chuck, faz com que o trunfo da trama seja bem menos efetivo quando ele surge. Parecem vários arquétipos separados em pequenas esquetes que, nelas mesmas, são envolventes, especialmente no início, mas no grande esquema do filme não se encaixam tão bem – confesso que em algum momento estava mais entretida identificando as carinhas conhecidas do elenco do que pela história em si. Além disso, ainda tem uma narração, feita pelo ótimo Nick Offerman, que explica desde contextos pregressos aos pensamentos dos personagens, quebrando momentos que de outra forma poderiam ser mais emocionantes. Dessa forma, quando o longa termina parece que faltou mais recheio, conhecer mais aquelas pessoas. Porém, também tem algo de belo, fofo, de deixar o coração quentinho, e com uma mensagem ao mesmo tempo positiva e agridoce.

A PARTIR DAQUI POSSÍVEIS SPOILERS

Para comentar algumas coisas que eu gostei ou desgostei neste filme vou ter que falar sobre qual é a grande “situação” que permeia toda a narrativa e talvez isso possa estragar um pouco a experiência. O filme é dividido em três capítulos, ele começa pelo terceiro e termina no primeiro, são eles: “Thanks, Chuck” (obrigado, Chuck), “Buskers Forever” (artistas de rua para sempre) e “I Contain Multitudes” (eu contenho multidões). A mesma estrutura do conto de Stephen King.

Sendo assim, de início acompanhamos o professor Marty Anderson (Chiwetel Ejiofor) vivendo o que parece ser o fim dos tempos. Há um colapso climático severo, a internet está intermitente, a taxa de suicídio é gigante e de repente tem uma cratera no meio da cidade impedindo as pessoas sobreviventes de voltar para casa. Com isso, o professor decide se reconciliar com a ex-esposa, Felicia (Karen Gillan) enquanto ainda há tempo. Este é o segmento mais interessante por conseguir inserir muitos detalhes que contextualizam a história sem parecer enfadonho e apresentar o  apocalipse como algo gradual e aterrorizante, mas sem um ar heróico e aventuresco. O fim das multidões apenas… é.

Na segunda parte Chuck (Tom Hiddelston), um contador, vê uma jovem (Taylor Gordon) tocando percussão na rua e começa a dançar espontaneamente, quando é acompanhado por outra transeunte (Annalise Basso) e ambos fazem um pequeno show. É o momento do cartaz do filme. Aqui Flanagan consegue estabelecer bem a conexão entre os personagens através da música e da dança, como se fosse em um musical mesmo, e é contagiante. Também abre espaço para as reflexões sobre dar continuidade aos sonhos e hobbies de infância, bem como a maneira como a música é um canal eficiente para trazer essas memórias.

A parte final é quando finalmente vamos conhecer de fato a vida de Chuck, a morte precoce dos pais, a conexão com os avós maternos (Mark Hamill – sensacional — e Mia Sara), bem como de onde surgiu a paixão pela dança. É aqui também que tem a cena que para mim resume o espírito do filme, quando o pequeno Chuck (Benjamin Pajak) dança com a avó a música Dance Hall Days (Wang Chung, 1984): aqui é quando o filme diz o que é “o sentido da vida”, os pequenos momentos de alegria e espontaneidade.

Mike Flanagan consegue novamente adaptar bem uma história de Stephen King, desta vez não de terror — apesar de ter elementos sobrenaturais (o terror é viver). No entanto, talvez funcione melhor como texto mesmo, pois a fluidez de uma leitura não foi traduzida com a mesma naturalidade aqui. Seja pelo recurso da narração ou pela artificialidade do diálogo, realmente parece que tem um texto literário por trás da obra audiovisual. Por outro lado, há muito esmero na direção de atores, por menor que seja a participação, todos dão peso às suas falas e tem seus momentos marcantes, especialmente no primeiro segmento do filme. São ótimas cenas, por vezes brilhantes, de um conjunto que é unido por recursos visuais e repetições didáticos e um discurso fraco na maior parte do tempo.