No texto introdutório sobre o Novo Cinema Queer, ficou claro como a aids foi fundamental – no pior dos sentidos – para a ebulição desse movimento, justamente por inspirar a revolta da comunidade LGBTQIAPN+ e simpatizantes com o poder público inerte e com as representações higienizadas ou mesmo inexistentes da própria nas artes. O caos social foi tão efusivo que uma mudança cultural patente foi providenciada para a virada do milênio, de boas e más maneiras.

Porém, para além da escala macro dos impactos do HIV, não podemos esquecer a turbulência existencial que a doença gerava no indivíduo, tanto por sua própria contração quanto pelo testemunho da partida precoce de familiares, amigos e amantes. O maior problema não era o fim em si, mas a forma que ele tomava, lenta, imprevisível, dolorosa. Era um sentimento que talvez fosse intangível até mesmo para as imagens do cinema ou para qualquer estrutura narrativa baseada em lógica, em padrões estruturais consolidados.

Ao pesquisar sobre o diretor Derek Jarman, assistir ao filme Blue (1993) e assimilar sua proposta estética, não pude evitar de pensar em uma outra obra também marcada pela cor azul e pela ausência de imagens, mas sobrando em poesia sobre o horror de uma finitude em câmera lenta, que inspira a desesperança. Fazia tempo que eu não ouvia o álbum A Tempestade ou O Livro dos Dias (1996) da banda brasileira Legião Urbana, mas de uma característica eu lembrava: a forma como o vocalista e compositor Renato Russo dava um caráter poético e, muitas vezes, grandiloquente à melancolia causada pela sua própria contração do HIV. O disco teve o título inspirado, segundo o próprio Renato, na peça A Tempestade (1610-11), de William Shakespeare, e foi lançado apenas três anos após o filme experimental de Jarman, diretor este que, em 1979, já havia adaptado a peça para o cinema. Tudo parecia se encaixar até demais!

1. BLUE: O “AZUL UNIVERSAL” DE DEREK JARMAN

Derek Jarman

O primeiro som que ouvimos ao nos depararmos com o “Azul universal” de Jarman é o de sinos tibetanos, usados no budismo para meditação e relaxamento mental, geralmente marcando o início e o fim dessas práticas. Esse, logicamente, é o som que também fecha o longa quando nos despedimos do Azul. Estamos em uma meditação do cineasta em um período de desamparo, onde seu foco está na busca por se sentir melhor, embora ainda reconhecendo sua trágica sina.

Porém, como um fã incondicional do cinema de Ingmar Bergman, não posso deixar de apontar que sinos também tendem a medir o tempo, com as badaladas tangibilizando o oposto do relaxamento: a completa ansiedade, de um relógio que passa e não volta atrás. Jarman antagoniza essas duas ideias em Blue, o desejo de abstrair e a ânsia material de sua efemeridade pela aids. O que começa como meditação compete com o que se torna um diário de experiências materiais, logo não muito positivas.

“O gotejamento de DHPG canta como um canário.”

“Minha retina é um planeta distante, um Marte vermelho dos quadrinhos Boy’s Own.”

Boy's Own

Seu corpo e sua mente já estão cedendo, sua visão começa a ser perdida. “David, Howard, Graham, Terry, Paul.” Jarman repete os nomes de seus amigos que se foram, provavelmente pelo mesmo vírus que o acomete em seu presente. “Não tenho amigos que não estejam morrendo ou mortos.” É como se estivesse buscando o momento de terminar a lista com “Derek”, sem decidir se isso será uma libertação ou uma dolorosa tragédia.

Se os sinos meditativos faziam-se presentes em um momento em que o diretor expressava sua divagação sobre um Garoto de Olhos Azuis – talvez sua versão em uma fantasia reconfortante que continua ao longo de todo o filme, como vinhetas para seus relatos –, uma cacofonia eletrônica toma conta de sua crua descrição de como a aids toma o corpo do hospedeiro de forma brutal, inclemente. A tempestade sonora da pulsão de morte.

Com isso, Jarman reflete sobre uma certa insuficiência da imagem ao definir sua ideia central:

“No pandemônio da imagem, eu te apresento o Azul universal. […] No fundo do seu coração, orei para ser liberto das imagens. […] A imagem é uma prisão da alma. […] Para o Azul, não há fronteiras ou soluções.”

Jarman usa seu alter-ego, o Garoto dos Olhos Azuis, como um indivíduo tão impactado pelos fatos (seu estado de saúde e as tragédias geopolíticas globais) que entra em um “sistema fora da realidade” (seu vórtex de sentimentos conflitantes). O cineasta passa a enxergar as imagens como ideias absolutas de valores, justamente pelo seu caráter espelhado. Não à toa, o labirinto de espelhos citado como um desafio para o tal Garoto tem alto potencial de cegá-lo, como estava ocorrendo ao próprio Jarman na vida real. O Azul, então, surge como “uma porta aberta para a alma”, “a escuridão que retorna visível”, uma infinidade de possibilidades de tangibilizar o que é intangível.

Em um momento crucial de Blue, Jarman narra a batalha entre o Azul e Yellowbelly, o Medroso, como uma epopeia homérica. Nada mais é do que uma luta entre cores pela superfície, mas com a descrição nada tímida do cineasta, entende-se que Yellowbelly é sua versão lúdica da decadência, da doença e da contaminação. O Azul, então, surge como a esperança de, se não derrotar, ao menos suavizar aquele percurso rumo à finitude.

Para Jarman, o “Azul universal” o é justamente por ser representativo de conflitos entre opostos. A cor da melancolia que, ao ser abstraída ainda mais, torna-se, em certo grau, esperança para as causas perdidas.

Diagnosticado em 1986, Derek Jarman viria a falecer em decorrência da aids apenas quatro meses depois do lançamento de Blue, seu filme de despedida.

2. A TEMPESTADE FURIOSA E MELANCÓLICA DE RENATO RUSSO

Renato Russo

O mesmo aconteceu com o cantor e compositor Renato Russo, vocalista da Legião Urbana. Diagnosticado com o HIV em 1989, o músico guardou essa informação do público e faleceu em 1996, 21 dias após o lançamento de sua despedida, o álbum A Tempestade ou O Livro dos Dias. Desde o quinto disco da banda, o existencial V (1991), Renato já escrevia sobre seus sentimentos em relação à doença. Músicas como Love in the Afternoon já questionavam a partida precoce de entes queridos, em especial Agenor Araújo Neto, o Cazuza, que havia falecido em 1990.

Porém, foi em A Tempestade que a atmosfera melancólica tomou conta da rebelde Legião em seu ápice. Renato sentia que estava indo embora e todas as faixas de seu disco corroboram com isso. Como o homem reservado que sempre foi, sua poesia aqui é bem menos clara em relação à doença do que o longa de Derek Jarman, com exceção, talvez, da já clássica A Via Láctea, talvez a mais próxima de Blue na maneira frontal em como o artista lida com sua enfermidade. “Hoje fiquei com febre a tarde inteira”, diz o eu lírico em meio ao conflito entre entregar-se totalmente à desesperança e manter uma certa paz de espírito para as pessoas que estão ao seu redor. “Não me dê atenção / Mas obrigado por pensar em mim”.

O resto das faixas lida com a ideia de estar indo embora ou de ter sido deixado para trás, em letras que sugerem relacionamentos conturbados, mas no conjunto da obra parecem dizer algo muito mais sombrio. Em Longe do Meu Lado, o eu lírico afirma não querer mais apaixonar-se porque, quando acreditou “que tudo era um fato consumado, veio a foice e jogou-te longe, longe do meu lado”. Em Dezesseis, conhecemos a história do maioral João Roberto (ou Johnny), um adolescente de 16 anos que acaba morrendo ao apostar corrida e chocar-se contra um caminhão. Quando a letra se conclui com um réquiem estudantil em coro (“Bye bye, Johnny!”), sabemos que as más línguas dizem que seu problema não foi a Estrada da Morte, ou a Curva do Diabo, ou o caminhão. Seu Opala Azul (!) perdeu o controle por causa de um coração partido. A ideação suicida de Renato em meio ao sofrimento é refletida no “acidente” de João Roberto.

Opala Azul

Assim como Jarman em seu infinito Azul, a Legião conduz o som d’A Tempestade entre a melancolia suspensa pelas notas suaves de um violão ou de um piano e a fúria da cacofonia, em 1993 representada por aparelhos eletrônicos descontrolados e, em 1996, tomando a forma da guitarra distorcida de Dado Villa-Lobos e da bateria de Marcelo Bonfá.

Vale apontar também algumas diferenças entre as duas obras. Se a visão de Jarman por vezes apresenta uma ironia cáustica, movida por um desejo escapista ou pela revolta sarcástica, a de Renato enclausura-se no existencialismo. Se Jarman enche seu filme de alegorias fantásticas, Renato se atém à realidade material e ao seu íntimo. Se Jarman assume orgulhosamente sua liberdade sexual em um momento que parece tirado dos ballrooms, Renato parece lamentar o distanciamento daqueles que estavam à sua volta e, ao mesmo tempo, repele qualquer conexão mais substancial por medo de perder ou ser perdido.

São dois artistas com diferenças claras em relação às suas visões de mundo. Porém, partem do mesmo sentimento, da mesma fatalidade iminente, e culminam em ideias parecidas através de métodos particulares. Ambas as obras negam a imagem, uma obviamente por sua natureza como peça musical e a outra por um experimentalismo vanguardista encorajado pelo Novo Cinema Queer, em um período efusivo em que essa comunidade era culturalmente representada em um momento de fúria e vulnerabilidade.

A Tempestade

Se A Tempestade da Legião Urbana teve inspiração direta no universal Blue de Derek Jarman, não poderei afirmar com categoria. O fato da capa do álbum ser de um azul semelhante àquele usado pelo cineasta e seus temas cruzarem-se tanto não parecem simples coincidências. Nem seu interesse em comum pela peça A Tempestade de William Shakespeare. Afinal, ambos usaram-na em contextos diferentes para comentar sobre temas parecidos: o isolamento na Ilha de Próspero como sofrimento e cura, a fúria revoltosa sendo abandonada em prol da superação dos ressentimentos, da resignação.

E o adicional: A Tempestade também foi o canto dos cisnes de William Shakespeare, sua despedida da dramaturgia teatral. Por mais que a adaptação de Jarman tenha vindo bem antes de seu triste diagnóstico, não dá para ignorar a possibilidade de Renato ter pesquisado a obra de Jarman para criar sua própria obra-legado. Essa troca inconsciente entre artistas seculares e contemporâneos e entre artistas internacionais vítimas da mesma pandemia negligenciada pela homofobia institucional é o que torna a relação entre o filme Blue e o álbum A Tempestade algo tão fascinante.

Que Derek e Renato fiquem bem, onde quer que estejam!