Após o suicídio de seu filho Felipe, o casal de idosos Carlos (Cacá Amaral) e Francisca (Denise Weinberg) buscam reconstruir suas vidas e enfrentar o luto.

Não há abordagem certa para lidar com um tema tão delicado. Por diversas vezes, buscou-se um olhar subjetivo, a partir do universo pessoal da pessoa tentando fugir de sua tristeza, na linha do que Goethe fez em Os Sofrimentos do Jovem Werther, de 1774. É frequente, porém, que tal visão caia em um senso comum, ou em uma perspectiva que — na tentativa de criar empatia — despersonaliza o deprimido e acaba fazendo um caminho contrário do pretendido, como acontece com a série 13 Reasons Why, de 2017, a qual (acidentalmente, eu suponho) passa a ideia de que o suicídio é uma opção válida e a única possível para a personagem.

Flávio Botelho sabe disso, e sabe também que uma abordagem subjetiva não é a única forma possível. A Metade de Nós é poderoso quando desconstrói a expectativa mais comum do espectador quanto ao tema: os motivos e os métodos são irrelevantes, a não ser quando interferem na vida após o ato. Felipe é quase um ser metafísico; poucas imagens sobre ele aparecem, e não temos nenhuma ideia de como ele era além dos relatos de seus pais.

Permanece somente os pequenos passos diários de Carlos e Francisca em lidar com as trivialidades da vida. Nesse âmbito, não há uma linha clara de superação, tampouco uma rígida estrutura de “fases do luto”. São pulsões de vida e de morte que se contrapõem e também convivem nos dois personagens. Também relativiza a forma como cada pessoa lidou com o luto: enquanto Carlos tenta se ocupar e fugir da realidade, Francisca digere tudo no isolamento e no silêncio, usando poucas vezes sua voz, frequentemente para transmitir a raiva do mundo que ela guarda para si.

Ambos, porém, não representam uma sólida ideia. São metamorfoses ambulantes, que encontram consolo no ódio, na agressão, na bebida e em outros comportamentos autodestrutivos; mas também no sexo, nas amizades, e na preservação da continuidade da vida, como ocorre com a cachorra de Felipe — que fica aos cuidados de Francisca e se torna um refúgio emocional, tendo também o fundamental papel de unir o casal em certo momento do filme.

No espaço entre as cenas mais destacadas, resta um silêncio sufocante, um vazio imensurável, que nunca voltará a se preencher completamente. Nesses momentos, sobra uma fragilidade, seja de um Carlos despido de sua aparente força e entregue ao nada que se tornou sua vida, seja de uma Francisca desconectada da realidade, como se vivesse em uma simulação na qual os acontecimentos pouco importam.

A Metade de Nós é forte, é sensível e é impactante, e não se resume a mero “estudo de personagem”, como vi alguns dizerem (sem nem explicar por que isso seria automaticamente ruim). Um angustiante conto de contraposições entre som e silêncio, entre o passado e o futuro, e entre a preservação da vida e a entrega à morte.