Um dos filmes que tive o privilégio de assistir durante o 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, como comemoração dos 60 anos do festival, A Falecida é originalmente uma peça de Nelson Rodrigues, escrita em 1953, sobre uma mulher neurótica e hipocondríaca, obcecada pela morte. Lançado em 1965 por um dos grandes expoentes do cinema novo, Leon Hirszman, é marcado por ser seu primeiro longa de ficção e a primeira atuação de Fernanda Montenegro no cinema, além da colaboração no roteiro do cineasta com o documentarista Eduardo Coutinho. A atriz foi premiada por este trabalho na primeira edição do festival, que naquela época ainda se chamava Semana do Cinema.
A história de Zulmira (Fernanda Montenegro) começa ao visitar uma cartomante que a diz para tomar cuidado com a mulher loira. Ela entende então que o mal estar que está sentindo é uma macumba feita por Glorinha (Glória Ladany), que tem a mesma descrição da cartomante, e por isso seus dias estão contados. A protagonista então busca ter na morte o luxo que lhe foi negado em vida, fazendo o possível para ter um funeral grandioso. No entanto, Zulmira aparentemente não tem nada além de um resfriado, o que frustra a mulher e aumenta sua inveja por Glorinha, que é um paciente de câncer tratada em bons hospitais e que teve que remover o seio.
O desejo de Zulmira pela morte é, na realidade, uma vontade de liberdade do casamento e da vida humilde em que vive na periferia do Rio de Janeiro. Com isso, o embate com Glorinha sobre quem tem mais dinheiro, seja para saúde ou para o funeral, existe apenas na cabeça dela e ela, no fim das contas, está sozinha. A protagonista também procura essa libertação mantendo um caso extraconjugal com o homem mais rico do bairro, João Guimarães Pimentel (Paulo Gracindo), que ela espera que pague o funeral. Enquanto isso, o esposo, Toninho (Ivan Cândido) não a leva a sério e está mais preocupado com futebol.
Portanto, mais do que um estudo de personagem sobre a mente instável de uma mulher invejosa, é um drama de costumes e também uma narrativa sobre a luta de classes. Zulmira deseja ascensão social que o marido não pode prover, não consegue com o amante, e ainda acredita que Glorinha tem e não merece, porém para ela no fim das contas o mais importante são as aparências: um funeral luxuoso para que todos pensem que ela conseguiu a riqueza que almejava.
Apesar de baseado em uma peça teatral, o filme tem uma encenação clássica do cinema, com algumas cenas muito emblemáticas como a de Zulmira tomando banho de chuva, e um texto com diálogos fluídos e naturais. Por isso, é um retrato muito vívido da sociedade brasileira à época, com um tom leve e sarcástico, além de estabelecer uma identificação imediata com aquelas situações, lugares e pessoas. Não é preciso comentar sobre a atuação magistral de Fernanda Montenegro, que transmite perfeitamente com o olhar e expressões fortes as nuances e verdades da personagem. A Falecida conquista pela história de mulher doida, mas permanece na memória pela narrativa que sutilmente denuncia uma sociedade ansiosa em meio a mudanças estruturais.