A obra do cineasta grego Yorgos Lanthimos não conquistou unanimidade, nem nunca se propôs a tanto. Ganhando mais notoriedade no ocidente depois de seu controverso Dente Canino (2009), o diretor começou a produzir em Hollywood sem abandonar suas estranhas provocações. Até quando algum de seus filmes consegue um apelo mais popular, a polêmica parece surgir em nível dobrado, como o que ocorreu com o oscarizado Pobres Criaturas (2023). Particularmente gosto de seus filmes, apesar de reconhecer suas limitações na abordagem de alguns assuntos, em especial quando apela para conceitos filosóficos sem aprofundá-los.
A seara com a qual parece lidar melhor é a sátira social, geralmente construindo comédias desconfortáveis de costumes ou situações assustadoras ao brincar com a quebra da zona de conforto de personagens acomodados. Meus favoritos de sua filmografia, O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017) e A Favorita (2018), são exemplos dessa abordagem. Porém, Lanthimos costuma se empolgar demais com suas ideias e/ou com seu próprio sucesso na indústria, embarcando em anos consecutivos de lançamentos autorais ambiciosos. Sua mais nova fase já demonstrou desgaste com Tipos de Gentileza (2024), longa antológico que sacrificava a coesão em prol de um senso de estranheza um tanto gratuito. Parecia o trabalho de um artista sem ideias, como se evidenciasse um certo bloqueio criativo.
Chegamos então a Bugonia – remake da comédia ácida sul-coreana Save the Green Planet! (Jang, 2003) –, que narra a história de dois primos conspiracionistas enquanto sequestram e mantêm em cativeiro a CEO de uma megacorporação farmacêutica, buscando provar que ela é uma alienígena disfarçada. Há um elemento que muito me agrada nesse novo longa de Lanthimos que remete até mesmo ao seu longa de 2023: ele trabalha muito com o hiperestímulo, tanto nas cores quanto nos movimentos, e abandona essa esquisitice estática da qual abusou ano passado. Há uma loucura frenética e desajeitada ao acompanhar os atos ensandecidos de Teddy e Don (Jesse Plemons e Aidan Delbis, respectivamente) e as cores em alta saturação ajudam a construir um mundo semi-fantasioso em que aqueles dois vivem dentro de suas próprias mentes. Com isso, o humor desconfortável típico do realizador também fica mais lúdico.
Porém, ultimamente vem revelando-se uma tendência chata de filmes hollywoodianos comandados por diretores autorais que tentam abordar temas políticos – em geral, bem relacionados ao atual zeitgeist – sem decidir um lado ou tirando qualquer traço de complexidade de suas analogias. A série The Boys (2019-presente) é, possivelmente, o maior exemplo, mas aponto também Uma Batalha Após a Outra (Anderson) e O Sobrevivente (Wright), ambos deste ano – por sinal, escrevi as críticas de ambos aqui para a Plano Marginal, nas quais comento sobre essa isenção de parcialidade. Claro que esse problema afeta mais alguns trabalhos do que outros. No caso específico de Bugonia, Lanthimos toma uma decisão um tanto inexplicável em sua reta final.
A PARTIR DAQUI, PRECISAREI DAR SPOILERS DO FILME!!!
Ao assumir Michelle Fuller (Emma Stone) como uma alienígena em seu desfecho, a intenção do cineasta torna-se bastante clara, especialmente pela devastadora ação final. É algo que me lembrou o conflito existencial entre criadores e criações no filme Prometheus (Scott, 2012), mas voltado para uma interpretação sociopolítica, da elite que tem total controle do mundo a ponto de causar a extinção da humanidade. Além de concordar com a crítica, acho que é uma maneira até bem humorada de apresentá-la como um plot twist. Isso, no entanto, acaba indo de encontro com a caricatura representada pelos primos, por fim corroborando com suas ideias conspiracionistas que, por sua vez, geram toda uma rede de violência. Lanthimos também parece ignorar o fato de que tais pensamentos costumam partir daqueles que defendem os interesses da própria elite, seja conscientemente ou não.
Mais um caso em que um cineasta parece estereotipar os dois lados a ponto de anular qualquer ideia, paralelismo ou comentário sobre a contemporaneidade. Ele neutraliza-se dentro do que aparenta ser uma falta de criatividade em montar essa sátira. Não assisti ao longa coreano original, mas independentemente de o diretor ter mantido ou alterado a ideia de Jang Joon-hwan, fato é que ele sabotou seu próprio filme no processo de adaptação. Bugonia, então, acaba sendo muito afetado pelos excessos de seu mestre cansado, preso desde o ano passado a uma caricatura de si mesmo e claramente precisando descansar para dar luz a novas ideias. Espero que, em alguns bons anos, vejamos Lanthimos em sua velha forma novamente e em projetos mais provocativos.