Em determinado momento do novo O Sobrevivente, o protagonista Ben Richards (Glen Powell) conta com a ajuda do personagem de Michael Cera ao gravar uma espécie de pronunciamento para o programa governamental sensacionalista do qual participa. Em uma gag cômica, o literal pano de fundo mostra a imagem do revolucionário marxista Che Guevara e, depois, do símbolo do anarquismo. Ambos são dispensados por Richards, que opta por discursar de costas para uma parede branca. Esse talvez seja o momento mais revelador sobre o quão política é esta obra: nada!
Ao adaptar o romance de 1982 escrito por Stephen King, o cineasta britânico adota uma abordagem bem próxima àquela que Paul Thomas Anderson tomou em seu Uma Batalha Após a Outra, também deste ano: a de completa neutralidade política diante de sua máscara de comédia satírica distópica. Porém, enquanto o filme de PTA parecia muito mais ambicioso em seus subtextos políticos, tornando isso o foco de seu longa de quase três horas, Wright parece reconhecer suas limitações temáticas (sejam elas particulares ou impostas pelo estúdio) e oferece um simples blockbuster de ação que, vez ou outra, escorrega em momentos de didatismo bobo ao enfocar o contexto político de seu universo diegético.
Isso não me incomoda tanto. Afinal, vivemos em um período do cinema comercial em que recebemos, de um lado, um conjunto de vícios artificiais da linguagem que tiram qualquer significância de suas imagens ou, de outro, emulações minimamente eficientes (ou não) de cinemas de décadas anteriores. Nesse ponto, eu acho que, como um longa de caçada nacional protagonizado por um carismático Powell que remete a vários clássicos dos anos 1980, o filme consegue ser divertido. E por mais que esse seja o trabalho mais domesticado de sua filmografia com folga, o humor semiótico de Wright continua perceptível em diversos momentos, como no uso das transições de uma cena a outra ou na própria brincadeira com o formato intermídia do programa O Sobrevivente, dando umas alfinetadas em tendências cada vez mais assustadoras do universo virtual. Isso sem falar de uma certa doçura familiar spielbergiana que o realizador demonstra desde sua Trilogia Cornetto (2004-2013), mas que ficou mais potente a partir de Em Ritmo de Fuga (2017).
Contudo, se essa nova versão consegue trabalhar muito melhor as possibilidades absurdas do reality show manipulado se comparado àquela lançada em 1987 e dirigida por Paul Michael Glaser, o mesmo não pode ser dito de sua inventividade visual. Sim, o longa anterior era caótico e sem sentido na progressão de seus acontecimentos, mas na composição das imagens, era um pouco mais interessante. Wright infelizmente também se entrega aos vícios do cinema contemporâneo, aqueles que citei no parágrafo anterior. Dou o benefício da dúvida, já que o cinema onde a cabine de imprensa foi realizada aqui no Rio de Janeiro não tem a melhor das imagens, mas acho que há momentos em que de fato essas práticas tornam-se perceptíveis, especialmente nos momentos com baixa iluminação.
Não há muito o que falar sobre O Sobrevivente, para ser sincero. É um filme divertido, mas nada memorável, que demonstra um certo comodismo comercial que Edgar Wright nunca demonstrou ter. Torço para que essa seja só uma baixa temporária de um dos cineastas que melhor representam o blockbuster do século XXI.