CASA EM QUEDA

A atriz Laleh Marzban venceu o prêmio de Melhor Atriz depois que este drama familiar iraniano foi exibido na seção Orizzonti do Festival de Veneza. Chegando ao Festival do Rio na Mostra Expectativa, o diretor Mohsen Gharaie nos apresenta a uma família da periferia de Teerã que, depois de dificuldades financeiras e desavenças, começa a rachar quando o patriarca tenta impedir a filha mais velha de sair do país para seguir a carreira de modelo.
É fascinante a forma como a direção trabalha o processo do patriarcado retrógrado engolindo a dinâmica familiar pacífica. Os tratores de demolição da construção do lado de fora da casa servem como força opressora, mas também como possibilidade de libertação. Uma pena que a progressão acabe ficando tão repetitiva e um tanto sádica a partir de certo ponto.
FORTALEZA

O filme de Michel Stolnicki está entre os curtas em competição na Mostra Première Brasil e foi exibido na mesma sessão do longa documental Dragões (comentado abaixo). Trata-se de um documentário sobre Isadora, uma menina carioca de 13 anos que começa a jogar no sub-17 do Fortaleza Esporte Clube. Em apenas 15 minutos, acompanhamos a saudade de casa, os desafios emocionais e físicos e as novas parcerias da jovem jogadora.
É muito difícil não simpatizar com a jornada de Isadora, ainda mais em um contexto de ascensão do futebol feminino em território brasileiro. Não há nada diretamente errado em Fortaleza, que tem seu coração no lugar certo. O problema é que estamos falando de cinema e tanto a metragem quanto o recorte focal do curta parecem arbitrários, fazendo com que o resultado mais pareça um VT de admissão para um programa de TV.
DRAGÕES

Também na Mostra Première Brasil, competindo na categoria de longas documentais, o ácido e alarmante ensaio de Miguel Antunes Ramos mostrou-se um dos filmes mais importantes do Festival do Rio no atual contexto político brasileiro. Comprometido à ingrata tarefa de estudar o canal do YouTube do ex-presidente Jair Bolsonaro, o diretor demonstra como sua família, seus assessores e até o próprio dirigiram seu trajeto à presidência a partir da imagética sem polimento das mídias sociais.
O poder da estética do “homem comum” dentro do ambiente online acaba inspirando o eleitorado a fazer o mesmo, multiplicando a influência e popularidade a partir da falsa proximidade com o povo. O mais desconcertante aqui é a dicotomia entre a comédia absurdista do que já passou e o terror construído sobre o que virá.
BORA, LULA 13!
TENDER LOVING CARE

O novo e possivelmente último longa do britânico Mike Leigh estreou no Festival de Telluride e tem sua estreia comercial programada para fevereiro de 2027. Chegando ao Rio na Mostra Panorama Mundial, segue o cotidiano de duas amigas que trabalham como assistentes sociais e moram juntas, vivendo suas vidas solteiras, até que o pai de uma delas começa a demonstrar sinais de uma possível demência.
O diretor é inteligente ao tornar o filme quase anti-narrativo em sua própria trivialidade. Acompanhamos conversas corriqueiras, visitas familiares, dias exaustivos de trabalho, encontros aleatórios ao ar livre, tudo para nos acostumarmos a uma dinâmica vivida daquelas personagens. Desse modo, o impacto da repentina saúde debilitada torna-se palpável, conduzindo o drama a uma belíssima demonstração de afeto e carinho.
O TEMPO E O LUGAR

Antes de exibir seu mais novo longa, o lendário Eduardo Escorel reexibiu, na seção Hors Concours Especial da Mostra Première Brasil, seu filme de 2008. Em O Tempo e o Lugar, o diretor e uma pequena equipe de produção visitam o agricultor familiar alagoano Genivaldo Vieira da Silva (ou Geno), investigando seu passado como membro do MST, candidato a prefeito de Inhapi pelo PT e militante pela reforma agrária desiludido com os primeiros mandatos de Lula na presidência.
Escorel foi editor de Cabra Marcado para Morrer (Coutinho, 1984) e, aqui, parece tentar dirigir sua própria versão. É um daqueles casos em que os personagens documentados são mais interessantes do que o filme que os cerca, já que parece mais uma peça puramente informativa que carece de ritmo e criatividade para estruturar a jornada de Geno.
PARAÍSO SEMIÁRIDO

Na mesma seção da mesma mostra, Escorel apresenta seu novo filme, uma sequência de O Tempo e o Lugar filmada 18 anos depois e voltando a acompanhar Geno e sua família, agora em uma realidade política brasileira completamente diferente, com o agricultor filiado ao MDB e eleitor de Jair Bolsonaro em 2022. O diretor examina a mudança de suas opiniões a partir de provocações sobre os acontecimentos mais recentes e controversos do nosso país.
Paraíso Semiárido até ressignifica seu antecessor. Ainda bem convencional em sua forma, é daqueles casos em que o assunto acaba formando a ideia, exibindo o reflexo de um Brasil que abandonou as lutas coletivas por desilusões particulares e individuais. Um dos filmes mais desconfortáveis do Festival, especialmente pelo seu timing.