Isso representa o Brasil mais do que futebol e samba. No dia 13 de fevereiro deste ano, completou-se o centenário de Elizabeth Teixeira, figura extremamente importante na luta camponesa no Brasil e personagem central deste documentário. É bem sabido, por pessoas bem informadas, o quanto a ditadura militar (1964-1985) foi mais um dos muitos capítulos sombrios e sanguinários da história do Brasil, impactando profundamente aqueles que enfrentaram as injustiças. “Ainda Estou Aqui”, filme de Walter Salles indicado ao Oscar de Melhor Filme na edição de 2025, aborda as barbáries da ditadura sob a ótica de uma família de classe média, gerando discussões acaloradas na internet sobre essa escolha narrativa. No entanto, o que mais chama atenção é: se a ditadura já foi brutal para pessoas de condição mais privilegiada, o que dizer das classes mais baixas? É essa perspectiva que Coutinho traz ao retratar a repressão contra os trabalhadores do campo, que já enfrentavam uma longa história de mobilização política e organização por demandas dignas antes mesmo do golpe, mas eram constantemente reprimidos por latifundiários e pelo Estado. A realidade, por si só, já seria chocante e aterradora; no entanto, grande parte do impacto da obra se deve à excepcionalidade de Coutinho ao documentar tudo isso, mantendo o foco em um núcleo forte.

Coutinho compreendeu que narrar a história do assassinato de João Pedro Teixeira é contar a história do Brasil para além dos anos de chumbo, revelando como certas estruturas permanecem inalteradas até hoje. O documentário aborda as Ligas Camponesas, a luta pela reforma agrária, o assassinato de João Pedro pelos latifundiários, o filme interrompido pelo golpe e seus arquivos revisitados na abertura política. É sobre Elizabeth se refugiando com a família, sobre aqueles que ainda se engajam na política e os que se desiludiram, e sobre tantas outras histórias. E tudo isso emerge da premissa de revisitar um longa inacabado, demonstrando a riqueza do Brasil ao tratar de sua própria história. Além disso, é uma obra sobre o caráter político da arte, especialmente do cinema.

A necessidade de contar a história de João Pedro antes do golpe era fruto de uma série de conflitos entre os grandes proprietários de terra e o campesinato. 

O cinema, como reflexo da realidade, tinha a função de expor e denunciar essas questões. Entretanto, após a tomada de poder pelos militares, em abril de 1964, o projeto foi interrompido e apenas fragmentos da obra foram preservados. O documentário produzido posteriormente é, portanto, um testemunho dessa realidade amarga, mas também sobre um filme que nunca chegou a existir plenamente. O aproveitamento dos arquivos antigos é um trabalho genial: os takes inacabados e dispersos são usados tanto como simulações de eventos – recurso comum em documentários – quanto como flashbacks de memórias dos remanescentes que participaram das filmagens. Em certos momentos, essas pessoas se reúnem para rever essas cenas, despertando lembranças da forte tensão política de 17 anos antes, evidenciando como aquelas filmagens ainda possuíam valor e ressaltando a importância da memória em um país como o Brasil. Ao entrevistar as pessoas, Coutinho evita uma postura de forte intervenção, colocando-se apenas como observador. Ele narra os eventos por meio de recortes de jornais, imagens de arquivo e trechos do filme inacabado.

Com os entrevistados, suas perguntas diretas permitem que cada um exponha sua vivência à sua maneira. Isso demonstra que a encenação é desnecessária quando as contradições históricas emergem naturalmente da tela, como em outros documentários brasileiros sobre a condição camponesa, como o curta “Maioria Absoluta” (1964), ou, em longas-metragens de ficção, o “Ladrões de Bicicleta” (1948), que aborda a miséria do trabalhador na Itália do pós-guerra. Em dado momento, o documentário deixa de ser apenas sobre um filme incompleto e se transforma em uma investigação sobre como as vidas da família de Elizabeth e de outros mudaram após 17 anos de perseguição e repressão violenta. É compreensível que muitos que passaram por essa experiência busquem seguir a vida de forma tranquila, dada a violência sofrida. Alguns ainda mantêm vivas as memórias da luta, enquanto outros preferem esquecer o passado em busca de uma nova normalidade, distante do furor das décadas de 1960 e 1970.

Entre aqueles que sobreviveram a esse período está Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro, que viveu na clandestinidade durante a ditadura. Ela é a figura central do documentário, carregando suas memórias: as lutas dos moradores de Sapé e do Engenho Galileia, os protestos denunciando o assassinato de João Pedro e sua própria sobrevivência ao longo de 17 anos. Após a redemocratização, ela retorna à vida pública e procura reencontrar seus filhos, dispersos ao longo dos anos. Apesar das dificuldades, seus ideais de justiça social continuam vivos. Ela resiste não apenas contra a desigualdade ainda vigente, mas também contra qualquer força que pudesse enfraquecê-la, transformando sua dor em força para honrar a memória de seu marido e dos companheiros assassinados pelos latifundiários.

Eduardo Coutinho conduz uma obra que é, acima de tudo, um resgate da memória de uma época que ecoou na formação do Brasil. Sua importância é ainda mais significativa quando se trata de marginalizados e oprimidos, cujas histórias são frequentemente apagadas e, quando de fato apagadas, cooptadas e transformadas em outra coisa. “Cabra Marcado Para Morrer” trata, justamente, disso: retomar a história para aqueles que foram esquecidos, garantindo que suas trajetórias sejam reconhecidas e honradas de múltiplas formas – seja por meio das entrevistas, das manchetes antigas ou dos vestígios de um filme que nunca existiu, mas que, paradoxalmente, se tornou algo muito maior do que poderia ter sido.