Eu lembro da primeira vez que assisti Dublê de Corpo no início do meu período de cinefilia, uma experiência que se tornou ainda mais curiosa depois de já está familiarizado com o trabalho de Alfred Hitchcock, especialmente suas três obras mais populares: Janela Indiscreta, Um Corpo Que Cai e Psicose. O suspense de Brian De Palma bebe diretamente das ideias de Hitchcock, e quando digo diretamente, me refiro à maneira quase literal de como toda a ideia do longa se baseia nas narrativas entrelaçadas dos dois primeiros longas do mestre do suspense listados acima. Mas antes disso, em 1980, De Palma já havia realizado uma releitura do que talvez seja o seu filme mais icônico, pois Vestida Para Matar se utiliza de uma premissa extremamente parecida com Psicose, porém, temperado com o erotismo voraz típico do diretor americano, além de uma problemática abordada de uma maneira bem retrógrada. 

De Palma, assim como Hitchcock, costuma colocar o público em uma posição privilegiada em relação aos personagens, permitindo que os espectadores identifiquem certas ameaças antes que os personagens o façam. A diferença? De Palma eleva essa lógica a uma dimensão muito mais erótica e violenta. O anseio de olhar está sempre ligado ao desejo sexual, e os dois se transformam em instrumentos pelos quais a narrativa cria tensão. Quem assiste é colocado em uma posição voyeurística, acompanhando aqueles corpos em meio a tensões sexuais e cenas de violência por meio de uma câmera que muitas vezes parece observar os personagens sem que eles percebam sua presença. 

Essas particularidades se tornam bastantes claras na sequência do homicídio de Kate (Angie Dickinson) no elevador. Após deixar um encontro sexual, a personagem se dá conta de que está sendo seguida e acaba sendo morta por uma figura enigmática. O elevador fechado então se torna uma armadilha indireta, à medida que espelhos e enquadramentos destacam a incapacidade de Kate de fugir do que está ocorrendo. De Palma converte o assassinato em uma autêntica coreografia visual, empregando montagem, movimentos de câmera e uma composição espacial para transformar a brutalidade em um espetáculo cinematográfico, uma característica autoral que também foi fortemente inspirada pelos Gialli de Dario Argento. 

A morte de Kate atua como uma quebra na narrativa, semelhante àquela feita por Hitchcock em Psicose com Marion Crane (Janet Leigh). Nesse caso, a personagem apresentada como protagonista é removida da trama de forma surpreendente, o que leva Liz Blake (Nancy Allen) a assumir gradualmente o papel principal da história. Liz é uma personagem especialmente relevante, pois cria uma conexão distinta com os espaços e com a sexualidade retratada no filme, ela é uma prostituta e a testemunha principal do homicídio, e consequentemente a principal suspeita. Ela se envolve na investigação e começa a buscar a identidade do criminoso, e dessa forma, a narrativa assume uma ideia de mistério sobre a verdadeira face do assassino misterioso.

É nesse ponto em que o filme toma um rumo extremamente questionável, algo que não apenas toma um papel central na narrativa, mas também é onde a relação com Psicose se torna bem clara. O assassino (ou assassina) é Bobbi, uma mulher transexual que teve sua cirurgia de mudança de gênero impedida pelo psiquiatra Robert Elliot (Michael Caine), e aparentemente busca vingança contra o médico, matando seus pacientes. Porém, Bobbi se revela como um alter-ego de Robert, sendo como uma segunda personalidade feminina que assume seu corpo em seus momentos de excitação sexual, e dessa forma, a narrativa constrói uma divisão entre Robert e Bobbi e utiliza essa dualidade como um dos grandes mistérios do suspense.

O problema reside no fato de que a identidade de gênero é vista não como uma experiência legítima do indivíduo, mas como algo ligado a uma condição patológica e perigosa. Assim, a revelação da identidade de Bobbi atua como uma “explicação” para a violência que havia sido mostrada ao espectador, e como apontado antes, o espectador assume o papel de um observador que busca pistas e tenta desvendar o que está “por trás” da aparência. E com isso, é criada uma estrutura bastante problemática: a pessoa trans é vista como alguém cuja verdadeira identidade está oculta por uma aparência enganosa. A noção de “revelação” ganha uma relevância exagerada, uma vez que o suspense se baseia na conversão da identidade de gênero em um segredo fatídico

Dessa forma, é importante não reduzir o problema simplesmente à afirmação de que “o filme tem uma personagem trans que é assassina”. Personagens trans podem, evidentemente, ser vilãs ou assassinas; isso, por si só, não constitui uma representação transfóbica. A questão verdadeira está na construção conjunta desses elementos. Em Vestida para Matar, a identidade de gênero, transtornos psicológicos, sexualidade e violência são narrativamente conectados, e é essa associação que torna a representação tão problemática. A questão aqui está menos na existência de uma personagem de identidade de gênero ambígua do que na função narrativa atribuída a essa identidade. Bobbi não recebe simplesmente uma identidade; ela recebe uma identidade que o filme utiliza como segredo, explicação psicológica, fonte de choque e componente da ameaça.  

Porém, a dupla identidade do assassino é justamente um dos pontos em que Vestida para Matar estabelece seu diálogo mais direto com Psicose. De Palma retoma de Hitchcock a ideia de que o assassino não possui uma identidade psicológica inteiramente estável e transforma essa divisão em um dos principais mecanismos de suspense do filme. A diferença é que, enquanto Psicose estrutura essa duplicidade em torno da relação entre Norman Bates (Anthony Perkins) e a personalidade de sua mãe, Vestida para Matar desloca a questão para Robert Elliott e sua identidade feminina, Bobbi.

É válido afirmar como a representação envelheceu de maneira problemática ou que até já era mal dialogada até mesmo para sua época. A escolha de transformar a identidade feminina e reprimida de uma mulher trans em parte da explicação para uma série de assassinatos produz uma associação entre não conformidade de gênero e monstruosidade. A influência de Psicose ajuda a entender de onde vem essa estrutura, mas não elimina suas consequências. Hitchcock utiliza a dupla identidade para representar uma personalidade profundamente perturbada; De Palma reutiliza essa mesma lógica e a combina com uma questão de gênero que, posteriormente, se tornou especialmente sensível no debate sobre representação trans. 

Mas apesar de todas essas questões, De Palma mais uma vez nos entrega um suspense digno de um dos grandes mestres do gênero, construindo suas sequências de tensão de uma maneira brilhante e visualmente formidável. Isso se torna uma divisória entre aqueles que assistem Vestida Para Matar, apontando a abordagem preconceituosa do diretor como uma composição narrativa completamente ignorante e pseudo-científica, mas que por outro lado, se torna a conclusão de um dos grandes suspenses eróticos do cinema.