Primeiramente vale dizer que é impossível não lembrar do documentário Paris is Burning, lançado em 1990, sobre a cena dos bailes de Nova York nos anos 1980 — e isso é indicado pelo próprio marketing do filme. Agora o local é em Niterói, em 2022, onde os contextos são diferentes, mas a essência permanece. Salão de Baile: This is Ballroom (2024) utiliza a mesma estrutura do longa estadunidense — entrevistas com pessoas do meio, entremeadas de imagens do baile — para contar a história da cena no Brasil, traçando os paralelos e diferenças em relação à cultura original dos EUA. O filme também dá os contextos necessários para compreensão com a representação de importantes personagens da história do ballroom.
De acordo com o documentário, os bailes no Rio de Janeiro começaram em 2015, inspirados nos bailes de voguing, que acontecem nos Estados Unidos desde a década de 1960. Eles fazem parte de uma subcultura de origem preta e transgênero, que agrega também outras representantes da sigla LGBTQIAPN+, e consiste em uma festa onde há uma competição em que jurados avaliam participantes em várias categorias, que envolvem moda, beleza, dança e expressividade. Muitas vezes essas pessoas fazem parte de casas (houses), que são verdadeiras famílias, em que todas, além de se ajudarem para melhorar seus desempenhos nos bailes, têm como principal objetivo acolher umas às outras em um local de afeto e segurança.
O documentário atualiza para o século XXI os temas mencionados em Paris is Burning, como a representatividade preta e a vivência trans, além de trazer as peculiaridades dos bailes brasileiros. É interessante pensar na conexão entre a cultura dos EUA e Brasil a partir da diáspora do povo preto presente nos bailes, bem como a expansão da presença transgênero para além de mulheres trans e travestis, já que aqui também há forte presença de homens trans e pessoas não-binárias também. O filme levanta questões sobre cultura e representação, que na década de 1980 ainda não eram tão amplamente discutidas, apesar de já serem presentes, como por exemplo a exaltação da beleza de pessoas pretas e fora do padrão, e a expressão da feminilidade mesmo ainda com características ditas masculinas.
Dentro do baile em si, a cultura brasileira remodela a estadunidense com muito mais música e dança, agregando, por exemplo, o samba e o funk. Ainda existem as categorias de moda e beleza, ressaltadas em Paris is Burning e, acrescentadas a elas, há diversas danças, do vogue (old way e new way) ao batekoo. O ambiente do baile daqui é acolhedor, apesar da competição, mas o documentário também mostra o outro lado, das tretas, lembrando que, apesar de tudo, sempre podem existir desavenças entre as pessoas.
No entanto, o foco principal é mostrar a cena ballroom como esse espaço seguro em que pessoas marginalizadas são representadas, exaltadas, amadas e abraçadas. Uma das entrevistas, inclusive, é com a mãe de uma das moças, que dá um depoimento emocionado de como ela acolheu a filha, Wallandra, e acabou se tornando um porto seguro também para as outras pessoas da casa Cazul. É bonito demais ver que esses espaços existem e estão prosperando, além de serem muito divertidos. Refletem a maneira brasileira de resistir à opressão, através da alegria, da dança, do barulho da música e do barulho que faz a presença desses corpos marginalizados.