O FESTIVAL QUE QUASE NÃO ACONTECEU
A abertura do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro quase não aconteceu. Seria apenas a primeira vez desde a censura da ditadura (de 1972 a 1974), em 61 anos de existência, que o tradicional evento não aconteceria. Porém, de última hora, o governo do Distrito Federal voltou atrás. O que ocorreu foi um bloqueio no repasse de verbas para a realização do festival, que chegou a ser cancelado efetivamente no mês de agosto e, somente por meio da mobilização popular, de trabalhadores da cultura e da classe artística, conseguiu receber o financiamento prometido.
Dessa forma, a abertura, na última sexta-feira, 11 de setembro, foi marcada por vaias e protestos contra o GDF, bem como falas que reforçam a importância das políticas públicas que apoiam a produção audiovisual brasileira.
DELEGADO

Cena de Delegado, exibido no 59º Festival de Brasília – Dia 1
Neste sábado, 12/09, o 59º FBCB teve como parte da programação a exibição de três episódios da série Delegado. Criada por Marcelo Lordello, Tião e Leonardo Lacca, protagonizada por Johnny Massaro e com produção de Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho, tem previsão de estreia no Canal Brasil e Globoplay para o dia 30 de outubro.
A série conta com uma equipe majoritariamente pernambucana e foi concebida pela primeira vez em 2013. O diretor de Bacurau a comparou com a série Plantão de Polícia, exibida entre 1979 e 1981, por ambas terem como tema as dificuldades de se trabalhar com justiça no Brasil. Delegado usa um tom cômico e sarcástico para contar as desventuras de um jovem delegado recém-empossado em uma pequena delegacia de Recife, cheia de figuras peculiares e com um modus operandi não convencional.
Mariposa

Cena de Mariposa, exibido no 59º Festival de Brasília – Dia 1
Filmado na praia Santa Rita, em Extremoz, Rio Grande do Norte, o curta de Alexandre Américo e Pedro Vitor aproveita a paisagem belíssima — das dunas encontrando o mar e da vegetação baixa com arbustos e palmeiras em um céu sem nuvens — para falar de ancestralidade e memória, além da conexão com o mundo espiritual e com a natureza.
A fotografia toda em preto e branco, com pouco contraste, um leve tom amarelado e planos abertos ressalta as formas naturais do ambiente. Ao mesmo tempo, os detalhes de objetos e rostos evidenciam a essência e ligação de Dona Zefa e Oliveira, os dois moradores do local, com o que está ao redor. A conjunção dos elementos vento, terra, água e fogo está destacada também nos sons naturais do meio ambiente, criando uma experiência sensorial completa e belíssima.
VEJO VOCÊ DE REPENTE

Cena de Vejo Você de Repente, exibido no 59º Festival de Brasília – Dia 1
Em seu primeiro curta, Aída da Costa parte de fotografias dela, ainda criança, e do pai, artista plástico falecido, para narrar suas lembranças dele e tentar reconstruir quem ele era. Para isso, ela mistura as fotografias com partes em animação com traço em cartum por cima da filmagem documental dos locais visitados por eles e das obras de arte do pai. Também incrementa com histórias contadas pela mãe e uma gravação de uma festa, antes perdida, em que o pai aparece em vídeo.
É um relato muito sensível, mas Aída também traz uma leveza em sua narração que não deixa a narrativa melodramática. Talvez seja uma melancolia lúdica, para conciliar a saudade com as boas memórias de uma vida interrompida muito cedo. Um sentimento parecido com o do filme Aftersun (Wells, 2022), mas passado no Ceará e envolvendo ilustrações de peixes.
ANA, EN PASSANT

Cena de Ana, En Passant, exibido no 59º Festival de Brasília – Dia 1
Esta animação de Fernanda Salgado usa uma mistura de técnicas bem diversas — com desenho, pintura, colagem, fotografia, rotoscopia — para contar a história da francesa Ana após descobrir uma foto, uma chave e uma carta deixadas por sua avó, recém-falecida, que a leva a um apartamento em Belo Horizonte. O problema é que, no apartamento, mora Alice, uma mulher grávida, solteira e com o mesmo nome da avó de Ana, mas que aparentemente não tem nenhum parentesco com a francesa.
Assim, Alice auxilia Ana na busca de respostas sobre o passado de sua família e da mensagem que sua avó teria deixado, bem como na superação do luto, enquanto Ana vê na conexão com Alice um recomeço. O primor técnico é o principal diferencial do longa, também marcado por um protagonismo de mulheres pretas, incluindo a icônica Zezé Motta.