O segundo filme exibido em comemoração pelo aniversário de 60 anos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi A Falecida, de Leon Hirszman, baseado em uma peça de Nelson Rodrigues, adaptada pelo diretor junto com o documentarista Eduardo Coutinho. Em 1965, quando o festival ainda se chamava Semana do Cinema, a icônica Fernanda Montenegro recebeu o prêmio de melhor atriz por este trabalho, em 2025 ela é a grande homenageada com o Candango Conjunto da Obra.

A versão em 2K de A Falecida exibida na sala Vladimir Carvalho, do Cine Brasília, só foi possível com um trabalho de resgate e restauração de negativos de diferentes cópias do filme, uma destas com legendas, e ajustes posteriores de imagem e som.

Boi de Salto

BOI DE SALTO

Depois de Francisco matar um boi para retirar a língua e apaziguar o desejo da esposa grávida pela iguaria, o casal foge para Teresina e em seguida já conhecemos o filho deles, Abdias. O jovem tem paixão pela dança e participa do grupo de Bumba-Meu-Boi da cidade, porém não pode realizar seu desejo que é performar de salto alto.

O curta dirigido por Tássia Araújo une o afeto e a conexão pela cultura regional do Boi com a cultura do Ballroom, muito difundida na comunidade LGBTQIAPN+ (Abdias até estampa um pôster da série Pose no quarto). A narrativa é sensível e consegue criar empatia pelos personagens mesmo com o tempo curto, ao ponto que deixa um gostinho de “quero mais” – mais performances, desfiles e danças.

Couraça

COURAÇA

Dois cangaceiros amantes escapam do massacre ao bando de Lampião por terem passado a noite juntos, afastados do grupo. No caminho de volta, antes de saberem da tragédia, encontram uma companheira grávida que também fugiu e decidem ajudá-la a voltar para a casa dos pais. Para isso, os três têm que viajar com cautela e encontrar um lugar seguro para que a jovem possa ter o bebê.

Com uma fotografia cheia de belas paisagens, o tema central deste curta extremamente bem produzido e sensível de Susan Kalik e Daniel Arcades é a masculinidade. Enquanto Zé Pavão vê um futuro em conjunto, Baía é relutante em aceitar sua paixão pelo companheiro e por isso tenta sempre afastá-lo, mesmo que, no fim das contas, tenha os mesmos desejos do outro.

Corpo da Paz

CORPO DA PAZ

Com uma narrativa sobre soberania de território, povo e corpo, de acordo com o próprio diretor, Torquato Joel, o longa Corpo da Paz centra a história em um menino, Teobaldo, que vive com os pais no sertão da Paraíba durante o início da ditadura civil-militar brasileira.

A belíssima fotografia em sépia dá o tom de sobriedade para o longa, que mantém sempre um ar de perigo e mistério, como se algo de ruim fosse acontecer a qualquer momento. Isso também é agravado pela presença do pesquisador estadunidense intervencionista que trabalha no Centro de Pesquisas do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS) e concomitantemente espiona os trabalhadores e produtores da região e faz anotações e experimentos para seu país.

Além disso, o irmão mais velho de Teobaldo, Lavôr, retorna para casa da família para passar as férias, mas há algo notável de errado com o jovem, a quem o menino trata como herói. A sombra da repressão da ditadura paira na casa da família, ao ponto da mãe perceber que talvez seu filho mais velho seja um subversivo – “mas o que é ser subversivo?” questiona o padre da cidade em uma das cenas.

O filme é muito competente em criar a sensação de tensão constante de se viver sob um regime autoritário, mas também tem seus momentos de alívio e humor, com Teobaldo descobrindo sua sexualidade e com o carismático Gentil: um aficionado pela cultura dos Estados Unidos, mas que se decepciona quando finalmente conhece alguém de lá.