Em homenagem aos 60 anos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tivemos a exibição do clássico de 1965, São Paulo, Sociedade Anônima, de Luiz Sérgio Person. A sessão teve participação de Regina Jehá e Marina Person contando sobre como o filme chegou ao World Cinema Foundation, criado por Martin Scorsese, para a restauração, por mediação de Walter Salles, depois dele assistir uma cópia de DVD do filme.
Também foram distribuídos dois prêmios especiais do festival. O primeiro foi o prêmio Leila Diniz, dedicado às mulheres que marcaram a história do cinema brasileiro e entregue à diretora Lúcia Murat, que estreia um novo filme no festival, o documentário Hora do Recreio. Em seguida, a professora Ivana Bentes recebeu a medalha Paulo Emílio Salles Gomes — criador do festival —, que homenageia personalidades do audiovisual.

DANÇA DOS VAGALUMES
O filme do diretor e roteirista Maikon Nery foi gravado no Assentamento Eli Vive, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), e conta a história de Joana, uma jovem que retorna ao lugar onde morou na infância para assumir o posto de professora na comunidade. Porém, o local é marcado por uma tragédia na vida da moça.
Com um visual belíssimo, cheio de contrastes marcantes entre luz e sombra, este curta é um símbolo de como a memória, a resiliência e a resistência são as armas que o povo tem contra a opressão. São como encontrar a luz de um vagalume em uma noite muito escura, na qual ela brilha intensamente e cria uma sensação de esperança para o futuro. A cena final do filme marca justamente o que pode ser a perspectiva do futuro da luta social: educação, união e muita luz.

XINGU À MARGEM
O documentário é fruto de um trabalho de dez anos na região do Pará, onde foi construída a usina hidrelétrica de Belo Monte. Feito a muitas mãos — segundo o diretor Wallace Nogueira, que divide a posição com Arlete Juruna —, o filme denuncia o que aconteceu com a população de Altamira e com a porção ribeirinha que vivia próxima ao Rio Xingu. Povos arrancados de suas casas com promessas de novas terras férteis e indenizações, mas que, na verdade, foram completamente negligenciados pela Norte Energia e pelo Governo Federal.
Misturando entrevistas com os ribeirinhos e momentos de silêncio — através da contemplação da natureza ou da observação das tarefas mundanas —, a direção cria uma narrativa que passeia por relatos muito potentes e espaços para reflexão e compreensão da situação precária que criaram para essa gente.
A valente e magnífica Dona Raimunda, líder comunitária e ribeirinha, é a figura central que serve de fio condutor do documentário, relatando como sua alegria a permitiu resistir à destruição de sua casa, à perda de amigos e à ruptura da comunidade; assim como à poluição do rio e à impossibilidade de pescar pois os peixes estão doentes.
Como ela mesma diz no filme em alusão à documentação sobre a propriedade e identidade: uma vida vale menos do que um papel. Raimunda ainda ressalta que vai lutar até o fim contra a Norte Energia, mesmo sofrendo ameaça de morte, pois a empresa trata os ribeirinhos como pessoas escravizadas e os deixa à mercê de doenças que os matam aos poucos; quando não é também o motivo de suicídio.
Em outro depoimento, um trabalhador que participou da construção da barragem do Tucruí a compara com a de Belo Monte, falando como ela foi concebida para ser durável e lá permanece sem problemas. Enquanto isso, nas palavras dele, Belo Monte seria uma tragédia anunciada nos moldes de Mariana, em Minas Gerais.
É um filme muito corajoso em sua denúncia, mas também extremamente importante para registrar a memória de uma parte muito recente da história do Brasil — que já está caindo no esquecimento — e da violência sofrida por esse povo por causa de descaso e ganância. Do mesmo jeito, importante ao tentar buscar algum tipo de reparação para os que ainda estão lá. Em Brasília, Raimunda vestia preto, de luto por sua comunidade.