Ao terminar Volver, senti a melhor sensação que se pode ter após ver um filme: aquele fascínio de ter adentrado em um universo diferente, próprio e complexo. O sentimento é de uma imersão completa, capaz de manter essa obra na minha mente dias após a concluir, onde ficará pela o resto da minha vida, eu espero. Isso é particularmente curioso pelo fato de a obra de Pedro Almodóvar não descrever um mundo próprio, não ser um épico, tampouco ter acontecimentos grandes e chocantes. O deslumbramento, aqui, surge de como o diretor consegue criar magia no mundano, e causar fascínio pela forma com que examina seu objeto (ou seus objetos). Volver é, assim, esse espetáculo colorido, emocionante e levemente engraçado de um misticismo às avessas, em que Almodóvar tensiona conceitos como realidade, magia, presença e ausência para os dissecar e criar algo novo.
O diretor, em toda sua sensibilidade, usa do absurdo para contar uma história mundana e bastante difícil de abordar sem entregar as surpresas. Sugiro fortemente assistir sem saber de absolutamente nada, como fiz, porém, para fins de coesão deste texto, irei descrever o necessário para entender o básico do enredo. O filme acompanha as irmãs Raimunda (Penélope Cruz) e Sole (Lola Dueñas), quando, anos após a morte abrupta de seus pais, tentam prosseguir com sua vida enquanto tomam conta da tia idosa Paula (Chus Lampreave); enquanto Raimunda precisa cuidar de sua filha adolescente, também chamada de Paula (Yohana Cobo).
Desse modo, a trama começa conectada, porém segmentada, com cada uma das mulheres tendo que lidar com seus demônios e suas responsabilidades. Os fantasmas que assombram os personagens, aqui, são materializados, muitas vezes literalmente. Não se trata de discutir a culpa ou de lamentar a perda, e sim de tornar eternamente presente tudo aquilo que se foi, tendo as personagens que seguir em frente enquanto convivem com um passado ainda vivo e concomitantemente confortável e incômodo.

Tudo isso é mostrado pelo diretor da sua forma mais característica: com cores fortes, um ritmo rápido e toques surreais que fazem o espectador duvidar constantemente da natureza daquelas imagens, questionamento amplificado pela naturalidade com que as pessoas lidam com os absurdos. O maior representante disso é como, mesmo em face de situações incomuns, o trabalho e as responsabilidades do cotidiano vêm em primeiro lugar, afinal, o luto não alimenta ninguém. A perda é tratada como uma anomalia que preenche os dias e assombra os indivíduos, especialmente aqueles que não têm tempo para as ver com calma, mas nunca como algo extraordinário.
A intersecção entre o drama realista e a magia se dá em como os absurdos, tal qual o fantasma da mãe de Raimunda e Sole ou o mistério acerca de como a tia Paula vive seus dias é integrado ao mundo, e como, progressivamente, o filme expõe que tais aspectos são manifestações bem menos místicas do que aparentam, aparecendo com o objetivo de tornar palpável as experiências pessoais daqueles indivíduos. A partir de um contexto muito concreto e bem definido, que aborda dificuldades financeiras, casamentos disfuncionais, relações familiares complicadas e até mesmo violência sexual; Almodóvar é um artesão que molda imagens de uma camada abstrata da existência humana.
Essas abstrações, aqui materializadas, são retratadas com todas as contradições inerentes às peculiaridades das vivências e sentimentos aqui abordados. Para isso, o visual vivo, colorido e eventualmente burlesco proposto pelo diretor intensifica tanto os trechos engraçados quanto os mais emocionalmente densos. Apesar da aproximação do melodrama, decorrente principalmente dos exageros emocionais, da trilha sonora pouco sutil e da expressividade das atuações; aos poucos nota-se como a finalidade de Almodóvar excede os tropos tradicionais do subgênero. O sentimentalismo não é tão representado pelo romance ou pelo destaque ao sofrimento, ao choro, aos estereótipos, ao maniqueísmo moral, enfim, ao apelo em relação aos aspectos mais superificais da esfera do sentir. Aqui, o mais importante é a profundidade da alma, a expressão das nuances, tudo em prol de valorizar o ato de abraçar a vida e entender que a presença do passado é inevitável — como diz a música de Estrella Morente que Raimunda canta —, cabendo a nós apenas aprender a conviver com ele.
Tudo isso, portanto, faz Volver não ser uma mera peça propaganda moralizante ou motivacional. Pelo contrário, é um filme que convida o espectador a imergir em sua fascinante magia, o destrói no processo e, depois, produz algo novo. Em vez de representar a realidade ou de imaginar um outro mundo, busca desenhar um objeto de análise a partir do imaterial. O passado se torna presente, a ausência se transforma em presença, o bizarro se torna mundano e o mágico se revela uma forma de entender o real. Tudo começa como uma série de anedotas não tão conectadas, que vão desde a tia Paula, com os óculos que deixam seus olhos comicamente cartunescos e que, mesmo bastante doente, consegue cozinhar perfeitamente; até um restaurante que opera com um cadáver no freezer. Contudo, o final amarra essas histórias em torno de um grande conto que encontra sua coesão na afirmação da vida em conjunto da morte, e não apesar dela. A humanidade, em todas as suas complexidades e mistérios, em todas as suas alegrias e tragédias, nunca foi tão hipnotizante quanto em Volver.