Vários cineastas – alguns de grande prestígio – carregam referências de nomes importantes do cinema; e dentre esses nomes está Alfred Hitchcock. Diretor que deixou um legado extremamente relevante na filmografia de seus admiradores através do voyeurismo, do suspense, e etc. Mas nenhum autor usou e abusou tanto das características do cinema de Hitchcock como o cineasta Brian De Palma, que tinha o diretor como seu maior ídolo. Se muitos decidem continuar o legado do ‘mestre do suspense’ em seus filmes após sua morte, De Palma escolhe se debruçar em sua morte, e em Um Tiro na Noite mostra como ele modifica as referências para construir um thriller policial, aumentando o caráter voyeur do cinema de Hitchcock não apenas para o olhar, mas também para o som.
O filme é carregado de duas faces. A primeira é uma síntese do que representa o cinema. É uma impressão técnica da realidade que é alterada de acordo com determinados interesses de quem o faz. Uma realidade manipulável e super estilizada, mostrando que se o conteúdo mostra o processo de fazer filmes e de manipulação da imagem como algo que chega a ser excitante, devido à quantidade imensa de possibilidades narrativas que isso pode trazer, a forma também se torna uma expressão desse fetiche pelo “fazer cinema”. Representada pelo acidente de carro, onde se manipula a realidade através da gravação (com edições, cortes, sonoplastia e etc). A forma como a imagem é manipulada, conta uma história diferente. A artimanha que o diretor usa, através do personagem de John Travolta, que trabalha como sonoplasta de filme B, para contar a história do cinema norte-americano – historicamente construído em cima de misoginia, moralismo e dominação da figura do homem é nos mostrar que o filme é manipulado ao olhar do homem, muito representado pelos grandes clássicos e os filmes B que tinham bastante fetichismo escroto.
A outra face é como essa lógica é aplicada em outros meios de comunicação mais potentes como a grande mídia, que manipula uma realidade a seu favor com determinados interesses. A questão é que, por conta disso, o verdadeiro viés é oculto, pois não atende a o que a grande imprensa deseja. Portanto, essa realidade é manipulada para que possa ser publicada uma outra narrativa com um outro viés. Brian De Palma compreende esse perigo da narrativa cair em mãos na medida que tem como referência o suspense hitchcockiano, mas, através de seus maneirismos, estica as possibilidades narrativas e técnicas que o Hitchcock não tinha alcançado no passado, onde, a cada evidência encontrada, as ações se tornam ainda mais urgentes como se ele estivesse sendo observado a qualquer momento. O voyeurismo, aqui, também é retratado como algo sobrenatural que cercam os protagonistas. E essa tensão é cada vez mais forte através do artifício dramático nos personagens de John Travolta e Nancy Allen.
Fora isso, o filme equilibra o sentimento do protagonista à margem das notícias e o sentimento de pária da sociedade quando De Palma coloca suas lentes na visão que tem um viés não mentiroso, o que mostra o que acontece quando a realidade é manipulada para um interesse real e sem canalhice; é o porta-voz do espectador para uma mídia poderosa e controladora de pensamentos e ideias. Mais uma vez, um filme que, analisando pelo contexto do cinema maneirista, onde tudo parecia ter sido testado e podia-se ousar nas técnicas, demonstra a farsa de originalidade no cinema. Não existe original. Como todas as histórias já estão dadas, basta saber como contá-las. E aqui, a história é contada de forma totalmente segura e apaixonada.