Ultimamente, uma discussão curiosa surgiu dentro da bolha cinéfila que, diferente de suas equivalentes, não parece tão idiota assim. Seriam os filmes mais comerciais da contemporaneidade muito ilibados, castrados, sem tesão? E o tesão aqui no questionamento pode servir tanto no sentido literal (da libido) quanto no figurado (focando no ato de fazer cinema com paixão). Claro que não se pode colocar todos os lançamentos de determinado período em um balaio, mas ainda assim uma tendência pode ser perceptível cada vez que uma “nova era dos estúdios” parece estar brotando em Hollywood.

E a comparação entre o novo Twisters e o Twister de 1996, dirigido por Jan de Bont, é inevitável e bate muito nessa discussão supracitada. Afinal, toda a estrutura do novo longa de Lee Isaac Chung (responsável pelo sensível Minari, de 2020) é quase idêntica à do filme dos anos 1990: a disposição dos personagens dentro daquela trama, o triângulo amoroso, o trauma da protagonista, o confronto entre os “caçadores de tornados” oportunistas e aqueles que se divertem e fazem bem para a comunidade afetada… Tudo está presente em ambos os filmes! E é aí que entra a forma.

O que me parece nesse novo filme é que Chung serviu mais como aqueles diretores independentes que têm a chance de comandar um projeto bilionário da Marvel: um tapa-buraco, um crédito protocolar que tem pouca autonomia real para criar algo com seu trabalho. Ou seja, nem acho que a insipidez de Twisters seja sua culpa. É um filme que cheira a algoritmo de estúdio para buscar a nostalgia de quem assistia ao filme de de Bont na infância ou adolescência e com a tentativa de alcançar um novo público, já acostumado com essa insipidez em outras franquias.

Se no primeiro de 1996, os “caçadores de tornados” sentiam o mesmo tesão por adrenalina em sua prática que o próprio cineasta sentia ao dirigir as cenas absurdas de ação (como a da casa na estrada, a do caminhão-tanque e a sequência final), o novo filme acaba transformando todos os momentos minimamente parecidos em algo protocolar, uma cena de ação que deveria estar naquele momento porque sim. Para ser justo, existe uma grande exceção a essa regra, que é o momento que envolve uma piscina vazia, na qual Chung e os produtores parecem ter tido certo ânimo para realmente compor um momento assustador de catástrofe, além de ter dedicado todo um tempo para a construção do momento em si, potencializando seu horror. Começa com uma cena tranquila no rodeio e a ascensão da tempestade move os peões no tabuleiro, até culminar no ponto de ebulição da piscina.

Essa mesma falta de tesão se faz presente também na relação do trio protagonista. Basta comparar Glen Powell em seus dois últimos papéis em Todos Menos Você (Gluck, 2023) e Assassino por Acaso (Linklater, 2023) com seu personagem aqui, um caipira divertido e charmoso mas que apresenta tais características apenas no papel, jamais conseguindo cativar o público de fato. O que deixa ainda mais misterioso o motivo de despertar a atração da protagonista vivida por Daisy Edgar-Jones, que surge aqui como uma versão bem mais sem sal daquela personagem de Helen Hunt; especialmente porque o filme insiste em tratar seu trauma passado como algo que a assombra tanto a ponto de fazê-la se afastar da ação, o contrário do desenvolvimento da personagem Jo do filme de de Bont, que usava seu trauma como motor de suas loucuras e de seu vício naquele trabalho.

E, se no filme anterior o triângulo amoroso servia para levar o nosso olhar leigo para dentro daquela turma de “caçadores de tornados” e para, depois, reforçar o desejo entre os personagens de Hunt e Bill Paxton, aqui surge do nada, como uma óbvia exigência de estúdio para fazer com que nos importemos mais com determinados personagens. É uma invenção infundada dentro da narrativa que não faz o menor sentido e que não move nenhuma ideia para frente, parecendo mais uma exigência algorítmica.

Twisters é um filme que involuntariamente exige uma comparação com seu antecessor por suas inegáveis semelhanças estruturais e narrativas (mesmo sem se assumir como remake, reboot ou sequência… vai entender!) e, nisso, acaba fazendo uma armadilha contra si próprio. Coloca em evidência o contraste entre a personalidade dos absurdos que Jan de Bont construía dentro de sua matinê noventista e o drama apático, genérico e sem tempero de um lançamento que parece qualquer outro lançado pelos grandes estúdios da atualidade. Uma pena!