Como um grande fã da filmografia de Ingmar Bergman e de outros dramas mais reflexivos sobre o tema, estou bem familiarizado com a ideia de personificar a Morte como um personagem que representa sua inevitabilidade e, portanto, a efemeridade da vida humana. Pensando bem, esse talvez seja um dos temas mais caros à nossa espécie, já que a incerteza sobre o pós-morte e a imprevisibilidade da chegada do Ceifador (qualquer que seja sua forma) assombram todos aqueles que se encontram vivos e conscientes, em maior ou menor grau.
Por isso, eu fui à cabine de imprensa de Tuesday com a mente bem aberta; afinal, a Morte tomar a forma de um pássaro — ainda mais uma arara, símbolo costumeiro de vivacidade e alegria — para auxiliar a “passagem” de uma jovem em estado terminal, e que ainda vive uma relação conturbada com a mãe, é uma premissa bem curiosa e que guarda um enorme potencial. Eu realmente não estava esperando um filme que não sabe qual ideia seguir e parece querer usar de tudo um pouco para tentar acertar algum tiro no escuro.
Até acredito que a diretora estreante Daina Oniunas-Pusić consegue apresentar bem sua premissa nos primeiros minutos de projeção, com um contraste sensível entre as situações lúgubres dos moribundos e o conforto da morte nesses casos, já determinando uma visão que escapa do maniqueísmo de encarar a finitude como algo maligno. Dito isso, é a partir do encontro com a garota doente vivida por Lola Petticrew que fica impossível entender o que Tuesday quer fazer com essa ideia da negação e aceitação da morte, da relação de mãe e filha…
Afinal, com a presença da personagem de Julia Louis-Dreyfus como centro dramático, comecei a ter flashbacks da minha experiência com o péssimo Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (Scheinert e Kwan, 2022), já que há aqui toda uma jornada metafórica e pretensiosa que busca reforçar a relação mãe/filha e ilustrar a aceitação do fim enquanto formalmente parece afastar o público cada vez mais da ideia central do longa, escolhendo retornar a isso apenas nos últimos minutos. Há uma impressão constante de que a diretora, ao mesmo tempo que busca emocionar a cada 5 minutos com frases de efeito melodramáticas, quer também tornar sua narrativa alternativa demais apenas para ser alternativa.
Nesse processo, até o tom do filme é afetado e não se entende como um melodrama, como uma comédia nonsense com toques surrealistas (algo que lembra uma versão inconsistente de Charlie Kaufman) ou até mesmo como um horror fantástico, mais um fator que aliena o espectador emocionalmente de sua ideia central ao jamais decidir para que lado manipular os sentimentos do público. Além disso, elementos como uma arara representando a Morte ou a jornada doida da mãe que cria um enorme parêntesis na progressão mais intimista do filme parecem muito mais servir a essa máscara “diferentona” do que a qualquer narrativa que o filme busca construir ao longo de suas quase 2 horas de projeção – que, a propósito, soam muito mais longas do que isso.
Tuesday é mais um sintoma dessa curadoria equivocada recente da A24. Um filme que determina uma estética pseudo-autoral para transmitir uma falsa impressão de originalidade enquanto, na verdade, está contando o mesmo melodrama lugar-comum de sempre, que busca emoção através de artifícios frágeis e inconsistentes. Uma pena! Essa premissa poderia ter rendido muito pano para a manga.