Todas as Estradas de Terra Têm Gosto de Sal acompanha Mack — interpretada em diferentes idades pelas atrizes Charleen McClur, Kaylee Nicole Johnson e Zainab Jah — , uma mulher negra no interior do Mississipi, em uma jornada sensorial pelo seu crescimento e amadurecimento.

Qualquer história pode ser interessante, mas algumas exigem mais esforço que outras. Quando um autor escolhe contar algo extremamente pessoal, há o constante risco de gerar uma dissonância na hora de passar a ideia da obra. Infelizmente, é o que acontece com Todas as Estradas de Terra Têm Gosto de Sal.

É um filme que claramente significa muito para a diretora Raven Jackson, a qual traduz suas experiências de vida em um formato de memórias, com toda a desorientação e confusão que são próprias dessa junção indiscriminada de lembranças que acompanha nossas mentes. Assim, a narrativa é quebrada, não linear e intencionalmente aberta, justamente como uma concretização dessa proposta de ser uma jornada sensorial pelas memórias da protagonista.

Esse conceito é a melhor coisa da obra, principalmente pelo fato de a diretora o pensar com uma alma absurda. De modo algum Todas as Estradas de Terra Têm Gosto de Sal é frio, visto que grande parte do enfoque da encenação está na humanidade em suas sutilezas — aspecto que remete fortemente ao slow cinema, mas sem cair nessa tendência totalmente —, especialmente, nos pequenos atos e nas mãos dos personagens, objeto de grande interesse da câmera.

Entretanto, tive uma imensa dificuldade para ver na obra todo o sentimento que a autora buscou passar. Sim, é um filme lindo, com um poder imagético gigante, mas isso tudo está dentro de uma totalidade bem desinteressante. Ao meu ver, falta um substrato mais sólido para dar um significado a essas sutilezas, como um desenvolvimento de personagem ou uma maior contextualização. Afinal, as sutilezas que o filme tanto valoriza não tem automaticamente valor emocional para quem não tem qualquer vínculo com as pessoas envolvidas.

Então, todo esse ótimo ponto de partida vai lentamente se esgotando. Quando a ideia de trazer uma jornada sensorial começa a não levar a lugar nenhum, e as imagens tem pouco poder a não ser pela sua beleza visual (algo que esta produção tem muito), o único sentimento que sobra é um tédio imenso. E não é um tédio como normalmente visto no slow cinema, em que ele cumpre uma função para a narrativa; é um tédio não intencional mesmo, de uma obra incapaz de gerar a experiência que propôs.

Não é que Todas as Estradas de Terra Têm Gosto de Sal seja péssimo. Volto a elogiar o formato de memórias e levemente onírico da narrativa, assim como as belas cenas que misturam o conforto e a melancolia. Porém, a sua impotência em transmitir ao público o significado que a trama tem para a diretora torna-o completamente desinteressante, e a curta duração é sentida como se tomasse o dobro do tempo do que realmente toma.