Parece que a Marvel precisou se inspirar um pouco na Pixar para encontrar um equilíbrio em suas narrativas. Thunderbolts* inicialmente prometeu, ainda que mais como meme do que sério, ser o filme “A24” da empresa; mas, para além dos profissionais envolvidos, não tem nada do que se espera do estúdio independente: é um filme Marvel com cara de Marvel. Por outro lado, aqui a ideia da “família que você escolhe”, já presente em outros como Guardiões da Galáxia (Gunn, 2014) ganha o adicional de “vamos falar sobre saúde mental’, que é típico de produções Pixar, como Up – Altas Aventuras (Docter, 2009) e Divertidamente (Docter, 2015), e surpreendentemente, isso é bem trabalhado no filme.

Yelena Belova (Florence Pugh) está cansada de trabalhar para a chefe da CIA, Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus), em missões com propósitos escusos, além de se sentir isolada e sem rumo. No entanto, ela aceita participar de uma última tarefa que envolve o assassinato uma colega de profissão e a destruição de provas da existência de projetos da O.X.E, empresa de Valentina que promove experimentos clandestinos. É então que ela descobre também estar na mira para ser deletada. Nesta ocasião, Yelena encontra Bob (Lewis Pullman), um rapaz de pijamas que não sabe como chegou ao local e será peça fundamental para entender as motivações da diretora da CIA.

A partir daqui vou comentar sobre algumas partes que podem ser consideradas spoilers 

A temática sobre saúde mental surge a partir das declarações e desabafos dos personagens, em especial Yelena e Bob, mas também do poder que o rapaz tem: na verdade, ele se torna o herói/vilão Sentinela/Vácuo, um dos personagens mais poderosos do universo Marvel. Como Vácuo, ele tem a aparência de uma sombra densa e consegue absorver as pessoas e levá-las para os momentos mais traumáticos de suas vidas.

Além disso, Bob também fala que tem dias bons e dias ruins, nos quais se sente invencível ou se sente péssimo, e essas e outras características típicas da bipolaridade são mencionadas para contar um pouco sobre o passado do personagem. Enquanto Yelena comenta que passa os dias no celular ou indo trabalhar, sem propósito ou companhia, como sintomas de depressão. Todo o grupo também tem que lidar com traumas do passado, pois suas histórias, obviamente, envolvem perdas, abandono, violência, culpa e até manipulações genéticas. Não é sempre que o cinema de ação se permite tocar nesses assuntos sob essa perspectiva do trauma que estar envolvido com tanta violência causa – um exemplo recente que consigo pensar é Jogos Vorazes (Ross, 2012), mas muito mais pelo livros também. No fim das contas, a característica que de fato une os Thunderbolts é esta: é um grupo no qual todos precisam de acolhimento ao mesmo tempo que compreendem as dificuldades que cada um passou.

Entretanto, é válido lembrar que este ainda é um filme da Marvel, cuja fórmula já está extremamente consolidada no cinema. Então pode esperar a luta antes dos personagens conversarem, os momentos de comédia com humor de referência, a falta de sangue e os soldados desumanizados, além, é claro, das grandes sequências de ação. Destaque positivo para a (curta) perseguição no deserto, na qual Bucky (Sebastian Stan) surge de moto, jaqueta de couro, óculos escuros e uma escopeta gigante, tal qual Arnold Schwarzenegger em Exterminador do Futuro 2 (Cameron, 1991).

Apesar disso, o “feijão com arroz” do estúdio é bem feito, ainda que sem grandes novidades (vale lembrar que a Marvel abdicou dos “diretores autorais” também), e os momentos em que a equipe trabalha unida são bem divertidos. Florence Pugh consegue segurar boa parte do filme sozinha, mas com vários colegas bem carismáticos para ajudar.