Existe uma forte compreensão do fascínio de Werner Herzog pelo casal de vulcanólogos a quem ele dedicou este documentário. Herzog é um diretor bastante conhecido por gostar de se arriscar de diferentes maneiras para fazer seus filmes como deseja, não se importando com o quão perigoso isso possa ser. Basta pesquisar sobre Fitzcarraldo, seu filme mais conhecido, repleto de histórias de bastidores infernais e controversos, que o ajudaram a consolidar sua fama de diretor “maluco” que não conhecia limites.

Maurice e Katia Krafft eram um casal fascinado por explorar vulcões e suas erupções bem de perto, algo que, à primeira vista, pode parecer loucura. No entanto, a admiração do casal por esses fenômenos superava qualquer medo, impulsionando-os a desvendar e registrar tudo, mesmo que isso pudesse lhes custar a vida — o que acabou acontecendo posteriormente. Assim, todos os arquivos de fotos e vídeos dessas expedições se tornam, para Werner Herzog, uma espécie de meditação da relação do homem com a natureza, a disposição de correr riscos e uma homenagem a todo o trabalho coletado pelo casal.

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer aponta a contemplação da natureza como significativa para o alívio do sofrimento humano. Ao observarmos, com admiração, uma paisagem, uma obra de arte ou um fenômeno natural, nos suspendemos da Vontade (do querer e do desejar) que continuamente alimenta nossas angústias. De forma desinteressada, passamos a nos conectar com o todo, rompendo com o eu individual e reconhecendo a insignificância e a pequenez dos nossos desejos. Em grande parte, essa ideia compõe a narrativa do filme: contemplar, com admiração e deslumbre, a natureza como ela é e como age por si mesma — no caso, as erupções vulcânicas e a beleza singular desse fenômeno tão perigoso e cataclísmico.

Herzog se coloca como uma espécie de observador e guia de toda a trajetória do casal, mas não de maneira biográfica convencional. Em vez disso, ele compartilha com o público o mesmo fascínio que Maurice e Katia tinham pela natureza, por meio da forma como as imagens são apresentadas. Quanto aos aspectos visuais, não tem muito o que descrever: as imagens falam por si mesmas, de maneira deslumbrante. Em diversos momentos, Herzog se dedica a permitir que o espectador contemple os fenômenos vulcânicos a partir de perspectivas quase inimagináveis, de forma quase lúdica. Isso não se restringe apenas aos vulcões — outras paisagens também são filmadas de modo estonteante, quase irreais. Toda essa contemplação é elevada pela adição de música erudita e cantos gregorianos, que intensificam o sentimento de grandeza e a atração que instigaram o casal, o diretor e, possivelmente, aqueles que assistem ao documentário.

A história de Maurice e Katia Krafft se desenvolve de maneira orgânica, de modo que seus papéis se transformam progressivamente. Inicialmente, eles se apresentam como exploradores que registram vulcões por meio de fotos e vídeos. No entanto, Herzog faz questão de destacar como eles evoluíram na maneira de filmar e fotografar. Visualmente, essa evolução é perceptível, à medida que a composição das imagens se torna cada vez mais elaborada e expressiva. Isso evidencia um elemento do cinema que parece estar desaparecendo nos dias atuais: o “pensar a imagem”. Essa reflexão não se limita ao cinema, mas também tem ligação com a fotografia. Antigamente, na época das câmeras analógicas e dos negativos da Kodak, tinha que se pensar com cuidado em cada foto, pois havia pouco espaço disponível; cada registro exigia planejamento prévio. Hoje, com os celulares, é possível tirar várias fotos por segundo, muitas vezes sem grande preocupação com enquadramento. Nesse sentido, Herzog deixa claro que Maurice e Katia não eram apenas exploradores. Eles estavam tornando-se cineastas.

O que se fortalece ainda mais quando as câmeras dos vulcanólogos passam a apontar para outro lugar: as devastações causadas pelas erupções nos vilarejos e nas populações locais. É uma virada de chave crucial e significativa, que engrandece o documentário e todo o trabalho dos pesquisadores. O fascínio pela pulsação das lavas e pelas erupções é interrompido para observar, com atenção, os desastres provocados por tais fenômenos, prolongando essa exposição, de modo que tudo passe a ser sentido de forma distinta daquilo que se absorvia no restante do filme. A espetacularização é abandonada para dar lugar à empatia em relação aos afetados pelas destruições e, narrativamente, as perspectivas se direcionam para dimensões que vão além dos próprios vulcões e passa a pensar sobre a situação do mundo no geral. Segundo Herzog, eles substituem o olhar científico por um olhar humanista.

Esse humanismo também se manifesta abordando os protagonistas dessa história: Maurice e Katia. Eles tinham plena consciência da dimensão dos perigos que enfrentavam, mas seguiram em frente movidos por entusiasmo. A contemplação da natureza fazia parte do amor que os uniu até o fim, quando morreram em decorrência da explosão de um vulcão. E todas as imagens — vídeos, fotografias e registros em geral — revelam o quanto o risco foi, para eles, compensado por um trabalho deslumbrante e profundamente marcado pela paixão dos dois pelo o que faziam.