Ultimamente, vem se discutindo muito o papel político da arte, seu descompromisso com a imparcialidade e a inerência de sua definição como um documento de seu tempo. Mas e quando a arte funciona como um escapismo da realidade material? Ela perde seu papel político? E se o escapismo for instrumento de autoconhecimento, mudança e resistência? Esses são alguns questionamentos que a nova versão de O Beijo da Mulher Aranha evoca.
Na verdade, o romance de Manuel Puig, publicado em 1976, parecia já transmitir essas ideias (infelizmente, ainda não o li), passadas para o oscarizado filme de 1985, dirigido por Héctor Babenco, e para a peça musical de 1992, da qual este novo longa é uma adaptação direta. A trama foca em dois presidiários que dividem uma mesma cela nos últimos meses da Guerra Suja na Argentina. Luis Molina (Tonatiuh) é um vitrinista homossexual preso por exposição indecente e Valentin Arregui (Diego Luna) é um prisioneiro político envolvido com um grupo revolucionário. O otimista e resignado Molina constantemente tenta confortar o irascível Arregui ao contar, de sua maneira floreada, um filme que viu estrelando sua mais amada diva Ingrid Luna (Jennifer Lopez).
Para começar a falar sobre o filme de Bill Condon, preciso partir de uma comparação com o trabalho de Babenco. O diretor argentino tinha como uma de suas características mais marcantes um apreço pela feiura decadente, o que casava com as narrativas que escolhia contar. Nisso, seu retrato sobre a miséria que pairava sobre Luis e Valentin na prisão brasileira do filme oitentista era opressivo, desesperançoso, como se partilhássemos do pessimismo do personagem de Raúl Juliá em seu destino praticamente certo de tortura e execução. Em contrapartida, sua representação dos filmes românticos contados pelo personagem de William Hurt não parecia tão escapista. Sua fotografia elegante e os tons melodramáticos só pareciam disfarçar uma abordagem ainda soturna e obscura que ia de encontro à personalidade vivaz de Molina.
E por que eu precisei descrever isso? Bom, é porque a obra de Condon segue um caminho praticamente oposto ao do longa anterior. Adotando o relato de apenas um filme dentro da história, a nova versão estabelece um paralelismo bem mais óbvio entre as duas linhas narrativas, gerando um contraste ainda mais chocante ao simular um musical clássico em Technicolor dentro da realidade escura e cinzenta de Molina e Arregui. A própria adoção do musical potencializa esse lado do escapismo, já que, como o próprio personagem de Diego Luna demonstra, os espectadores tendem a não levar a sério a cantoria aleatória.
Porém, a palavra-chave acima é “simular”. Afinal, se o filme de Babenco ainda apresentava um tom lúgubre e sombrio dentro dos relatos cinéfilos de Molina, aqui Condon parece sugerir o escapismo efêmero de outra forma: partindo da artificialidade da simulação do clássico pelo digital. Tudo é muito bonito dentro do filme estrelado por Ingrid Luna, mas Condon empresta a ele a mesma plasticidade reluzente e esquisita que virou chacota quando assumiu A Saga Crepúsculo (2008-2012) em seus dois últimos capítulos no cinema. Tudo bem que, ao menos aqui, essa abordagem consegue ser vistosa e interessante, já que, lá na série dos vampiros vegetarianos, o diretor parecia mais interessado na bolada que iria receber. O meu ponto é justamente como Condon parece reforçar a ideia que Babenco já evocava, só que de uma maneira diametralmente oposta no tratamento de suas imagens.
No entanto, há também um problema nessa diferença de olhares. Se Condon parece retirar a textura do filme dentro do filme de forma eficiente, o mesmo não pode ser dito de sua abordagem distanciada e mais desinteressada ao focar na relação entre os dois prisioneiros. Parece que a dura realidade do longa só ganha força ao gerar um contraste com as cenas coloridas e vivazes do musical ou nos momentos em que é invadida por elas, como os trechos em que Molina parece fugir da Mulher Aranha na enfermaria da prisão ou quando reflete sobre as torturas que ocorrem no recinto, gerando momentos musicais mais assombrosos e claustrofóbicos. A própria amizade entre os dois, que se desenvolve para algo próximo a um carinho romântico, soa mais apressada e pouco convincente, mesmo com Diego Luna tornando Valentin um homem mais aberto e simpático em suas interações com o parceiro de cela.
No fim, O Beijo da Mulher Aranha de Bill Condon acaba oferecendo o esperado: uma versão suavizada da história de Puig e do filme de Babenco, o que funciona muito bem em uma frente, mas não tanto em outra. No fim das contas, a reta final é tão encantadora quanto a da versão de 1985 e faz com que o filme termine de forma edificante para consigo mesmo, o que é sempre satisfatório de assistir.