A diretora Ana da Costa Ribeiro homenageia o seu avô Joaquim da Costa Ribeiro, pioneiro da física no Brasil e descobridor do fenômeno termodielétrico, que dá nome ao documentário, ao explorar sua história, suas cartas e os locais que marcaram a sua vida. No percurso, dá origem a um sensível ensaio sobre memória e tempo.
Depois de tantos documentários nacionais que se limitam a explorar um lado formalístico mais próximo do jornalismo do que do cinema, foi maravilhoso ver uma obra tão sensível quanto Termodielétrico. Inicialmente, a ausência de uma construção imagética mais sofisticada parece implicar em uma tentativa de restringir a narrativa aos próprios fatos; porém, o decorrer do longa mostra que essa escolha é mais que justificada.
A opção de contar uma história através da narração intercalada por cartas, poemas e citações, enquanto mostra fotos e vídeos da época ou de locais e objetos que remetem a seu avô, vai ao encontro do valor que a diretora dá à memória. Afinal, Termodielétrico é, acima de tudo, uma homenagem cuja beleza vem fortemente desse aspecto contemplativo, que permite ao espectador se envolver com a sua própria imaginação sobre aquilo que está sendo narrado.
Foi também muito feliz da diretora a escolha de articular as referências à história de Joaquim com outras artes, uma vez que demonstra uma humanidade ímpar, que se distancia do senso comum sobre o gênero documental, e procura uma aproximação com a incrível gama de possibilidades que o cinema proporciona. Assim, há uma junção de diversas propostas submetidas a uma mesma (e simples) técnica, circunstância que cria uma unidade à obra, a qual torna inseparáveis o lado mais informativo do aspecto mais humano do filme.
Por isso, apesar de sua duração reduzida, o longa tem uma capacidade de emocionar que excede em muito tantas outras produções com histórias bem mais marcantes. Afinal, submeter os sentimentos a uma forma de jornalismo ou a um modo mais protocolar de fazer cinema significa matar os próprios sentimentos. Não é só sobre contar uma história, nem sobre calcular os momentos que causam certas emoções; a arte deve ter alma, e o resto é decorrência disso.
Termodielétrico é lindo. Um grande exemplo de como um documentário pode ser mais poderoso que diversos dramas, e não precisa contar uma grande tragédia ou um grande evento para isso. Ana Costa Ribeiro tem uma clara paixão não só pelo seu avô, o qual, inclusive, nunca conheceu, mas à faceta humana do cinema, e felizmente utilizou dessa arte para nos levar por uma jornada pela memória.